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Pra não dizer que não falei sobre o Nós e Elis
Rubervam Du Nascimento*
Eu que, confesso, sempre me considerei um bicho xucro, não muito chegado a noitadas em bares e, hoje, muito mais escondido em um kibutz contemporâneo de chão e nuvens de ferro e cimento na zona leste da capital que, somente em ocasiões muito especiais ou forçado por circunstâncias do ofício de servidor público, deixo o mundo dos meus livros, da poesia, da escrita, da poeta Carmen Gonzalez, Rudah e Inda, poderia ficar calado em relação ao que se está escrevendo sobre um espaço que nos 80 foi freqüentado por quase todos os jovens da minha geração.
Mas não vou ficar em silêncio: darei o meu testemunho por entender que o Nós & Elis não foi um simples bar; esse espaço foi o responsável não só pelo surgimento mas, sobretudo, pela afirmação de valores artísticos que feriram de morte a ingenuidade artística e destruíram a mesmice cultural da terrinha.
Eu que passei alguns bons momentos no Bar Nós e Elis do inesquecível amigo Elias do Prado Júnior, em torno de mesas onde sentaram pessoas que caminhavam comigo naquela época, entre as quais poetas, músicos, fotógrafos, artistas plásticos (lembro-me que estive alguma vezes no Nós & Elis acompanhado do Fernando Costa) e que até hoje ajudam a pulsar as cordas e os sons do coração e das cores das palavras, nesta distanter-e-sina, relatarei três acontecimentos de que fui testemunho e julgo importantes à memória, não somente de um bar, mas desta cidade que, a despeito das atenciosas manifestações de apreço e considerações protocolares de quem se apresenta como seus defensores perpétuos, a sua história está entregue à morte e ao esquecimento. Exemplo? O costumeiro desprezo dessas figuras pela arquitetura de seus prédios, nomes de ruas e logradouros públicos, irresponsavelmente modificados, sem qualquer preocupação com o que representa essa destruição às gerações que se seguem.
Vamos então ao relato das conversas no Nós e Elis no final de alguma tarde, ao sair das aulas da UFPI ou em uma boca de noite de Bar, levado por algum evento literário que me chamava a atenção ou pela recompensa da companhia de poucos amigos que eu até hoje prezo. O primeiro, o lançamento do livro: Percurso do Verbo do poeta Ramsés Ramos, quando foi lido, pelo autor, um Manifesto Poético em que se referia a todos os poetas vivos de nossa geração. O Ramsés tinha plena consciência que havia, à época, um movimento cultural na cidade que mobilizava uma quantidade considerável de jovens identificados com o que acontecia como proposta de ruptura cultural e política no Brasil e no mundo, sendo ele um dos protagonistas desse movimento, cuja história já se encontra, pouco a pouco em resgate; uma geração composta de artistas das mais variadas vertentes que aqui nasceram, ou se fizeram piauienses. E, muito mais, sabia que essa geração se constituiria, como hoje se constitui no “prego no sapato” da arte e da cultura no Piauí. Um Manifesto lírico de nosso tempo, cujo suporte era a poesia e a experiência de vida de quem seguia experimentando os caminhos das transformações do mundo das artes em nosso Estado; manifesto que, se for localizada a cópia, (quem sabe a Carla Ramos não o possua entres poemas e outras peças deixados pelo Ramsés! ou esteja editado em algum jornal!) pode servir como texto de releitura, durante A Noite dos Cavalos de Dom Ruffato que estamos preparando para comemorar o nascimento de poetas e artistas de nosso tempo que foram embora para Pasárgada, incluído o próprio Ramses Ramos.
Outra Conversa de Bar que versava sobre a poesia do Mário Faustino, presente o nosso professor Carlos Evandro Eulálio que, a certa altura emendou: se o Mário estivesse vivo estaria criando hoje em alto e profundo barroquismo. Também concordo. Será que o Carlos Evandro lembra dessa conversa e dessa noite?
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajetórias.
E finalmente a conversa entre músicos e poetas da terra, cujas notas dissonantes giravam em torno de uma pergunta que até hoje nos incomoda e não tem resposta definitiva: letra de música é ou não é poesia? Lembro da dispersão do grupo provocada pela sentença aos berros do professor José Maria de Vasconcelos, sentado à mesa, não sem antes declamar em voz alta o poema, A Construção do Chico Buarque: letra de música também é poesia. Será?
Aconteceram outros momentos no Nós & Elis em que estava presente e de que me lembro mas não quero relatar aqui, pois acredito que é preciso guardar parte da matéria-prima da fábrica de imaginação que funciona nesses lugares, para que continue como substrato capaz de alimentar, a qualquer momento, o exercício da criação.
Bom tempo aquele, não? Concordo com o lema que rege esse roteiro de lembranças: a gente era feliz e sabia. Que pena, o tempo passou tão rápido e levou nas costas dos ventos, quase sempre desfavoráveis a nós todos, o Nós & Elis, e a sua mágica! Acredito que bares como o Nós e Elis não existem mais!.Penso que hoje as conversas estão alheias a tudo e a nada que infestam o barulho doentio das boites, bares, restaurantes e de outros cantos, onde come-se e bebe-se de um tudo, menos o néctar inquietante dos deuses que somente a poesia sabe preparar para tornar as tardes e as noites mais agradáveis, menos violentas e dignas de registro futuro.
Rubervam Du Nascimento, poeta, cidadão teresinense por conta própria, desde 1972, onde concluiu em 1984, o curso de Ciências jurídicas e sociais na universidade Federal do Piauí. Quatro livros de poemas editados, entre os quais: A Profissão dos Peixes, 2ª edição, revista e diminuída; MARCO Lusbel desce ao Inferno; Os Cavalos de Dom Ruffato e o mais recente: Espólio, 1º lugar no Premio Nacional da Livraria Asabeça/SP.
 Rubervam du Nascimento
 Rubervam Du Nascimento e Naeno
 Construção
Chico Buarque de Holanda
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
 Chico Buaque de Holanda
 Carlos Evandro Eulálio
 Carla e Ramsés Ramos
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