Zezé Fonteles
A impressão que tive à primeira vez em que entrei no Nós&Elis foi a de um pequeno oásis. Impressão dada pela atmosfera criada pelo laguinho (também batizado de "Bebódromo"), pelas plantas decorativas e pelas árvores em volta, pensei eu - só mais tarde entendi que essa aura era o reflexo mágico da Música, da Arte. Meu querido amigo e conterrâneo parnaibano Elias Ximenes do Prado Jr. como apreciador de boa música e conhecedor de cachaça tinha acertado no alvo ao criar o Nós&Elis, que a partir de então tornou-se imprescindível na cena artística local. Daí, quando mais tarde Elias nos propôs, às minhas irmãs [Rita e Nasaré] e à mim, que assumíssemos a administração, não foi nada difícil aceitar e me sentir em casa.
Mas, só a título de lembrança, as coisas nunca foram perfeitas no Nós. Ora era o banheiro masculino que entupia e um cheiro (tudo, menos bom!) invadia o salão e o palco. Ora era a cozinheira que não era boa e as comidas eram intragáveis... O palco do Nós&Elis, tecnicamente falando, era uma catástrofe. Acusticamente mal projetado (qualquer tentativa de equalização dos instrumentos e vozes era prontamente coroada por um interminável concerto de apitos) e fisicamente mal construído (sendo a distancia entre as tábuas do piso tão grande que o salto dos sapatos entre elas frequentemente ficavam enganchados e onde iam parar também palhetas, plugs de guitarra, conectores e toda sorte de miudezas para desespero dos músicos, que nem sempre tinham consigo peças sobressalentes). Uma verdadeira praga, mas onde poderíamos nós nos sentirmos em um palco mais à vontade que no palco do Nós&Elis? A platéia era certa, atenta (quase sempre), amiga e não economizava aplausos - não importa quem cantasse (ou se à capela), quem tocasse (não somos todos nós aprendizes?) , quem rimasse (mais um verso subversivo?) ou encenasse (de ator e de louco também tenho um pouco)... Nesse ponto, citar nomes seria dimensionar..., subdimensionar...
O Nós&Elis foi "o espaço"! E como um dos mais importantes locais de sua época, fez história e em torno dele criaram-se lendas e mitos. Numa dessas histórias diz-se que os clientes do Nós&Elis sentiam-se tão bem que ao irem embora levavam consigo o copo do último drink, como lembrança (isso viria a esclarecer o fato de semanalmente precisarmos comprar nova leva de copos e taças). Uma lenda muito divertida conta que a atmosfera do bar era tão amigável e relaxante que o nosso grande compositor e músico Geraldo Brito (Desculpa aí, GB!) conseguia até mesmo tirar um cochilo durante suas apresentações. Outro mito difundido (provavelmente saído como tantas outras histórias da época, de um conhecido endereço à Rua São Pedro) era que o Bar Nós&Elis faturava rios de dinheiro.
Tudo isso mostra que o Nós&Elis, mais que um bar, foi motor, moto e lastro. Ao tempo que fomentou e desafiou o imaginário popular.
Lembrar do Nós&Elis, dos tempos do Nós&Elis. Primeiro pensei: "Pra quê? E ser atropelada por uma avalanche de recordações nem todas boas?" E, olha, não condeno minhas irmãs por não se animarem com a idéia de escrever um texto sobre. Mas então, num átimo, fui de novo dominada pela "febre Nós&Elis"!