Cruz Neto
Lembro-me apenas que era uma sexta-feira, aproximadamente vinte e três horas, meu filho ardia em febre e eu não tinha nenhum centavo no bolso para levá-lo ao médico e, nessa época, estudante e estagiário, não tinha plano de saúde. Sabia que seria uma noite daquelas, quando o telefone toca, atendo-o e uma voz me diz:
- Cruz Neto; é o Prado Júnior do Nós e Elis, tô precisando de ti, o cara que viria tocar hoje aqui no bar, adoeceu, como estou te ligando de última hora pago o cachê dobrado e você também toca na noite de amanhã também com o cachê dobrado.
- Cara desculpa, mas você pode adiantar o pagamento, pois meu filho está ardendo em febre e não tenho um tostão para levá-lo ao médico e se não souber que ele foi medicado e estar bem não vou conseguir tocar numa boa...
- Tudo bem, vem correndo que te adianto todo o cachê.
Coloquei o violão e o livro de repertório no fusquinha amarelo, de passageiros levava meu filho Rafael, minha mulher e a babá. Morava pertinho do Nós e Elis, apenas três quarteirões. Quando lá cheguei, fui direto a janela do bar e o Elias já me aguardava com a grana na mão. Voltei ao Carro o entreguei a Zezé e ela seguiu rumo à clínica. As duas noites toquei além do tempo de praxe, normalmente, tocávamos de vinte e três as duas no máximo três horas da madrugada, mas naquelas duas noites toquei com muito prazer até às cinco da manhã, pois havia sido abençoado por um anjo chamado Elias Ximenes do Prado Júnior. Esse foi o meu primeiro contato com o cara. O tempo passou nos tornamos grandes amigos e quase todos os domingos nos divertíamos com nossas famílias na casa do Lazaro que nesse tempo ainda não era do Piauí.
Nossos encontros eram sempre regados a muita cerveja, cachaça mangueira (nesse tempo não estava na moda, bebia-se porque era boa mesmo), churrasco, violão, música e muito papo legal. Falávamos de tudo, especialmente de música, política e economia, principalmente a brasileira, que nessa época estava de mal o pior, Elias e Lázaro eram economistas e eu estudante.
Em um desses nossos encontros surgiu a ideia de Elias sair candidato a Deputado, tempos ainda difíceis, a ditadura, embora já um tanto enfraquecida, ainda incomodava e ditava as regras do jogo. Eu estava com o violão na mão e imediatamente criei um refrão que dizia “Nós e Elias, nós e Elias, nós e Elias lutando por melhores dias”... e assim surgiu, nessa mesma tarde, a candidatura e a música do candidato, cujo refrão fazia associação do Elias ao seu Bar Nós e Elis. Infelizmente ele não foi eleito naquela vez, mas tempos depois se tornou deputado estadual realizando assim, um sonho antigo de poder lutar por melhores condições de vida ao tão sofrido povo do Piauí.
Poucas vezes toquei no Nós e Elis, nunca fui muito chegado a tocar em barzinhos, não por preconceito ou qualquer outro motivo especial, mas simplesmente, por ser compositor e não gostar de perder muito tempo aprendendo a tocar musica dos outros, preferia, tocar para compor, mas sempre dava minhas canjinhas por lá. O que gostava mesmo era de ir pra lá e ficar ouvindo música da melhor qualidade, tocada e interpretada pelos melhores artistas da época, era amigo de todos e isso tornava tudo muito mais especial. Jogava muita conversa fora com a rapaziada, especialmente com o Elias, éramos muito ligados.
Um dia muito especial, o dia seguinte após a eleição de Tancredo Neves para Presidente. Eu havia acabado de chegar de Parnaíba e o Elias foi lá pra casa pra gente comemorar. Bebemos algumas e mais tarde fui ao Nós e Elis, essa foi uma noite muito especial, a noite da esperança de dias melhores, do sonho da liberdade, do adeus à censura que tanto dificultou minha vida de compositor, o sonho da justiça e da legalidade. Se a memória não me trai agora, foi aberta uma bandeira brasileira na parede do palco e tudo foi diferente naquela noite. Pessoas que normalmente freqüentavam o bar como clientes, nessa noite subiram ao palco, recitaram poemas, leram textos e principalmente, sonharam com um país melhor.
Agora tanto tempo depois, quando dou uma passada pelo passado, o que não gosto muito de fazer, lembro de um tempo bom, um tempo onde o artista piauiense foi tratado pela primeira vez com respeito e dignidade, um tempo em que se discutia política de modo silencioso e lia-se na Universidade o Capital de Karl Marx com capa de almanaque abril pra fugir dos dedos duros. Um tempo de sonhos, de amanheceres, de acreditar em um País que renascia das cinzas de uma ditadura longa e brutal. Tempo de felicidade, no qual conheci um anjo que se tornou um bom amigo e tinha um bar chamado Nós e Elis.