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Nas trincheiras do “Nós e Elis”
Marta Tajra*
Quando se tem vinte e poucos anos, poucas coisas adquirem um significado realmente pomposo na vida, dessas que os adultos teimam em infligir e a gente acaba incorporando por osmose. a tal de Responsabilidade. Não! Com vinte e poucos anos, Responsabilidade não é o supra-sumo de nossas vidas. Queremos sair, nos divertir, ficar rodeada de amigos para jogar conversa fora e... brincar, brincar e brincar. Tem coisa melhor? Estava nesta fase da lua quando comecei a freqüentar o Nós e Elis. Lua cheia de graça, alegria e aventuras. Tudo era novidade e eu era só prosa e verso. Mais prosa do que verso, é verdade, pois começava a trabalhar como jornalista, e prosa sempre foi o meu forte. Para poetar, existia este bar em Teresina de nome um pouco nostálgico e um pouco poético. Coisa do dono que adorava a Elis Regina. O bar, todas as noites, era infestado de poetas e de candidatos ao cargo. Alguns eram poetas de verdade. Outros queriam apenas impressionar a ala feminina freqüentadora do bar.
Esses que se diziam poetas, depois que bebericavam umas pinguinhas, tomavam coragem e o microfone das mãos do cantor da hora e mandava ver. A turma quando não gostava, não chegava a vaiar não, pelo menos, eu não me lembro, mas continuava a conversa como se não tivesse ninguém no palco. E o “bebum” invisível continuava rasgando o verbo, para alguma musa inspiradora ali sentada, como se fosse o próprio Mário Quintana reencarnado em palavras, carne e osso.
As conversas sempre giravam em torno de poesia e política...política e poesia. Duas coisas aparentemente contraditórias, mas o bar era muito freqüentado por estas duas espécies de homo sapiens, os jornalistas e os poetas. Não me pergunte o porquê. Eu não tenho a mínima idéia. A “intelligentsia” piauiense marcava ponto ali todas as noites, caísse chuva ou fizesse sol. A abertura política no Brasil era coisa recente assim como a campanha das Diretas Já.
Esta democracia foi incorporada também às mesas do bar e a famosa divisão: homem de um lado e mulher, de outro não existia no Nós e Elis. Foi a primeira “abertura política” que se deu por aqui. Mas,quando os homens queriam falar das mulheres, se bandeavam para o balcão do bar ou para as proximidades do banheiro. A gente já sabia. Conversa de homem. Tinha que respeitar. Mesmo sendo da “intelligentsia”.
No Nós e Elis nasceu muita pauta boa para a editoria de cultura do Jornal da Manhã. Na época, era eu a editora desse suplemento. Não que a gente decidisse as pautas no Nós e Elis, mas algumas foram inspiradas, com certeza, naquelas mesas encharcadas de cervejas, caipirinhas, água de coco e muito bom humor. Aliás, a turma do Salão do Humor do Piauí se revezava entre a pauta do jornal e as cadeiras do Nós e Elis. O velho Borjalo, os irmãos Paulo e Chico Caruso, e muitos outros ...se tornariam velhos conhecidos do local. Alberto Piauí, aquele menino dos cabelos prateados e sotaque de maluco beleza, era quem puxava essa turma pra lá.
Kenard Kruel, outro assíduo freqüentador e então presidente do Sindicato dos Jornalistas, de convicta posição de esquerda (na época em que ainda era moda, nos meios literários, ter idéias de esquerda), fazia do Nós e Elis a sua derradeira trincheira contra os donos dos jornais, dos quais meu tio era uma das vítimas. Moda ou não moda, o certo é que muitas “revoluções” foram estrategicamente planejadas ali. Revoluções intelectuais, diga-se de passagem. Tendo Ramsés Ramos, como cúmplice, além de dublê de poeta. E poeta dos bons, diga-se, também, de passagem. Depois, Ramsés voou para a Rússia e nunca mais voltou. Ali, rolavam entrevistas, nasciam letras de músicas, namoros, conversas paralelas e...outras coisinhas mais, às vezes, até demais para o meu gosto pequeno burguês.
Quando chegava alguém de fora para se apresentar no Teatro 4 de Setembro, que na época, reinava exclusivo em Teresina, artistas, poetas, escritores, cantores...era tiro e queda, Nós e Elis, na cabeça. Por um tempo, o bar passou a ser o reduto da classe, mas era aberto ao grande público, desde que esse público gostasse de música de boa qualidade que tocasse numa altura razoável para que as pessoas pudessem conversar entre si. Coisa rara, hoje em dia. Geraldinho Brito, prata da casa, era um dos meus favoritos. Toda vez que subia ao palco do Nós e Elis - com a sua viola fora do saco e a timidez caricaturada na cara, era ovacionado pela platéia. Mas quem quisesse, podia subir ao palco e submeter seu timbre de voz à apreciação da seletiva platéia. E o pior é que havia quem se habilitasse mesmo, noite adentro.
O próprio dono do bar, o enfant terríble, Elias Prado Jr., ás vezes, roubava a cena incorporando Vinícius, o poetinha. Copo de conhaque na mão, microfone na outra e nós, da platéia, tendo que fechar os ouvidos a certa altura dos acontecimentos. Uma farra. Netinho da Flauta era outro da minha preferência. Com os seus dedinhos rápidos e rasteiros, Netinho tocava e encantava a platéia, tal e qual o flautista do conto de Hamelin, deixando a platéia e os ratos do Nós e Elis encantados com tanto talento solto no ar. Ratos no Nós e Elis? Sei que vai ter protesto, mas se até em Paris, a capital mundial da cultura, tem ratos, por que não no nosso pequeno bar? Não seria completo, se não tivesse. Mas, voltando ao Netinho, o som da sua flauta, era como o canto matinal do corrupião em plena floresta, dando bom dia para o sol. Muitos amanheciam ali junto com o sol e a flauta doce do Netinho.
Com olhos assim tão poéticos há que se ver um Nós e Elis como um bar de boêmios, intelectuais e amantes da boa música, um tanto provinciano, um tanto simples, um tanto rústico, localizado numa ruazinha meio escondida, meio misteriosa, que dava para uma pracinha acanhada com árvores frondosas e algumas figueiras. Mas, pouco a pouco, com a chegada do progresso, a ruazinha foi mudando adquirindo ares cosmopolitas , a paisagem se transformando, restando pouco ou nada do que existia antigamente do bar e dos nossos vinte e poucos anos.
Com ares assim tão nostálgicos, só restará um Nós e Elis, neste pequeno livro e na lembrança dos freqüentadores que conheceram um bar humano e aconchegante que existiu um dia, lá pro rumo da zona leste e que a especulação imobiliária teimou em destruir. Como livro de memória é um painel a mostrar que o homem põe e a história dispõe.
*Marta Tajra é jornalista


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 Marta tajra
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