Camila Rabelo
Nos anos 80 e 90 os artistas brindavam a arte no Nós & Elis .Sou filha e irmã de músicos. Cá estou eu dizendo, novamente, com todo o orgulho que me cabe.
Além deles, tenho uma Mãedrasta, Samara Eugênia é escritora das boas. Foi ela quem me influenciou , assim como meu pai e irmão, em muitos dos meus gostos musicais atuais e literários, principalmente.
Olhe, preciso confessar uma coisa. Fazer essa pessoa que aqui escreve ter um gosto digno foi tarefa muito difícil. Fui Emo (pois é) na pré-adolescência e lotava o computador de downloads de bandas ruins as quais eu prefiro nem mencionar, pra não perder a credibilidade. Então saiba que se a sua prima ouve Restart ou a sua irmã mais nova é apaixonada pelo Luan Santana, nem tudo está perdido.
Como podem perceber, falo demais (portanto escrevo demais). Acabo mudando o curso da história.
O motivo da minha presença por aqui hoje é pra falar da alma de um lugar que nunca estive, mas que gosto por gostar, de graça. Gosto pelas fotos e pelo que ele representa pra muita gente que conheço (ou não).
Vivemos uma época de Boemia, Raízes, Canteiro de Obras, Planeta Diário, muita banda cover, muito cover de gente que pega cifras no Google (sem ofensas). As bandas não tocam mais até o dia nascer feliz, pro mundo inteiro acordar e a gente dormir. Mas nem sempre foi assim.
Ouvi vez ou outra, nas reuniões amigas na casa do papai ou no sítio da família, um nome de bar. Nós&Elis.
Nunca vi importância nisso até sair, ir pra rua e ouvir de outras bocas, de outras pessoas, em outras mesas. Já não era apenas nome. Eram histórias.
Ficava ali, pertinho da Ufpi, lá pelos anos 80, 90. Nunca foi difícil notar o carinho de alguns pelas lembranças das noites, das canjas, dos garçons e de tudo mais que tinha por lá. É gente que fala do bar como quem fala de um ente querido que foi morar fora e nunca mais voltou.
Penso eu que antes as coisas tinham outro gosto. A música, a arte, os shows, os risos, as conversas. Li que “ser um dos melhores espaços culturais do Nordeste” era a pretensão. Até onde sei, parece que foi.
Pode até ter existido outro com a mesma proposta, mas, nos dias atuais, assim como não se dá bom dia ao sol no final de um show, não continuam muitos projetos culturais por aqui.
Elias Ximenes, o proprietário (e amigo, que deixou saudade em muita gente), foi o primeiro dono de bar em Teresina a pagar cachê aos músicos com trabalhos autorais (ou que tocavam música de qualidade) e o Nós&Elis foi o primeiro também a ter música ao vivo diariamente.
Lá que grandes nomes surgiram e que muita gente se apaixonou, bebeu, cantou, se descobriu artista. Músicos, poetas, artistas plásticos, jornalistas, professores, estudantes, sindicalistas. João Cláudio Moreno, um dos nossos maiores humoristas, iniciou sua carreira por lá. O palco foi ocupado por Edvaldo Nascimento (que apelidava o lugar de Nós&Elvis), Geraldo Brito , Emerson Boy, Roraima e tantos outros que talvez vocês não conheçam, mas que deveriam.
Se tinha cover, era do Luís Melodia, Milton Nascimento, Gal Costa, Tom Jobim, Djavan, Rita Lee, Beto Guedes, Caetano e tudo mais de bom que a música brasileira nos proporciona.
O palco, que tinha espaços enormes entre as tábuas de madeira do piso, era uma espécie de buraco negro. Uma distração que fosse e lá se ia mais uma palheta... Tinha também um laguinho, batizado de bebódromo, onde muitos caíram provocando risadas na platéia, quase sempre amiga.
Espaço aberto, com umas 30 mesas (e talvez até menos), bem em uma esquina. Mais palco que qualquer outra coisa... Atualmente é endereço de padaria, onde os sonhos são ingeridos por gente que não viveu ali.
Espero sinceramente que o Canteiro de Obras (Bar do Kilito), localizado no Centro de Teresina, onde ainda posso ver poesia e música autoral, não se torne mais um estacionamento.
Se quiser saber mais sobre a história do bar imortal, compre o livro “No Nós & Elis a gente era feliz – e sabia” , organizado carinhosamente por Joca Oeiras e cheinho de relatos de gente que foi feliz, em épocas de Bom Dia Teresina.
Veja alguns:
“Nos&Elis , o palco onde cabia todos , porque a arte que se respirava.“ (Rosilândia Melo)“ Ali rolava política, muito jazz, muita conversa, drogas evidentemente, e flertes que acabavam numa noite de amor na maioria das vezes." (João Cláudio Moreno)“Bastava sair um novo disco do Chico, do Caetano, Gil ou do Milton, pronto, tinha discussão nas mesas do Nós e Elis. Um novo filme, um livro, futebol, até fórmula um, tudo era motivo pra gente se encontrar lá.” (Aurélio Melo).