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Camila Rabelo
 
- 27/04/2011 - 00:00

Memória Teresinense


Camila Rabelo

Nos anos 80 e 90 os artistas brindavam a arte no Nós & Elis .Sou filha e irmã de músicos. Cá estou eu dizendo, novamente, com todo o orgulho que me cabe.

Além deles, tenho uma Mãedrasta, Samara Eugênia é escritora das boas. Foi ela quem me influenciou , assim como meu pai e irmão, em muitos dos meus gostos musicais atuais e literários, principalmente.

Olhe, preciso confessar uma coisa. Fazer essa pessoa que aqui escreve ter um gosto digno foi tarefa muito difícil. Fui Emo (pois é) na pré-adolescência e lotava o computador de downloads de bandas ruins as quais eu prefiro nem mencionar, pra não perder a credibilidade. Então saiba que se a sua prima ouve Restart ou a sua irmã mais nova é apaixonada pelo Luan Santana, nem tudo está perdido.

Como podem perceber, falo demais (portanto escrevo demais).  Acabo mudando o curso da história.
O motivo da minha presença por aqui hoje é pra falar da alma de um lugar que nunca estive, mas que gosto por gostar, de graça. Gosto pelas fotos e pelo que ele representa pra muita gente que conheço (ou não).

Vivemos uma época de Boemia, Raízes, Canteiro de Obras, Planeta Diário, muita banda cover, muito cover de gente que pega cifras no Google (sem ofensas). As bandas não tocam mais até o dia nascer feliz, pro mundo inteiro acordar e a gente dormir. Mas nem sempre foi assim.

Ouvi vez ou outra, nas reuniões amigas na casa do papai ou no sítio da família, um nome de bar. Nós&Elis.

Nunca vi importância nisso até sair, ir pra rua e ouvir de outras bocas, de outras pessoas, em outras mesas. Já não era apenas nome. Eram histórias.

Ficava ali, pertinho da Ufpi, lá pelos anos 80, 90. Nunca foi difícil notar o carinho de alguns pelas lembranças das noites, das canjas, dos garçons e de tudo mais que tinha por lá. É gente que fala do bar como quem fala de um ente querido que foi morar fora e nunca mais voltou.

Penso eu que antes as coisas tinham outro gosto. A música, a arte, os shows, os risos, as conversas. Li que “ser um dos melhores espaços culturais do Nordeste” era a pretensão. Até onde sei, parece que foi.

Pode até ter existido outro com a mesma proposta, mas, nos dias atuais, assim como não se dá bom dia ao sol no final de um show, não continuam muitos projetos culturais por aqui.
Elias Ximenes, o proprietário (e amigo, que deixou saudade em muita gente), foi o primeiro dono de bar em Teresina a pagar cachê aos músicos com trabalhos autorais (ou que tocavam música de qualidade) e o Nós&Elis foi o primeiro também a ter música ao vivo diariamente.

Lá que grandes nomes surgiram e que muita gente se apaixonou, bebeu, cantou, se descobriu artista. Músicos, poetas, artistas plásticos, jornalistas, professores, estudantes, sindicalistas. João Cláudio Moreno, um dos nossos maiores humoristas, iniciou sua carreira por lá. O palco foi ocupado por Edvaldo Nascimento (que apelidava o lugar de Nós&Elvis), Geraldo Brito , Emerson Boy, Roraima e tantos outros que talvez vocês não conheçam, mas que deveriam.

Se tinha cover, era do Luís Melodia, Milton Nascimento, Gal Costa, Tom Jobim, Djavan, Rita Lee, Beto Guedes, Caetano e tudo mais de bom que a música brasileira nos proporciona.

O palco, que tinha espaços enormes entre as tábuas de madeira do piso, era uma espécie de buraco negro. Uma distração que fosse e lá se ia mais uma palheta... Tinha também um laguinho, batizado de bebódromo, onde muitos caíram provocando risadas na platéia, quase sempre amiga.

Espaço aberto, com umas 30 mesas (e talvez até menos), bem em uma esquina. Mais palco que qualquer outra coisa... Atualmente é endereço de padaria, onde os sonhos são ingeridos por gente que não viveu ali.

Espero sinceramente que o Canteiro de Obras (Bar do Kilito), localizado no Centro de Teresina, onde ainda posso ver poesia e música autoral, não se torne mais um estacionamento.

Se quiser saber mais sobre a história do bar imortal, compre o livro “No Nós & Elis a gente era feliz – e sabia” , organizado carinhosamente por Joca Oeiras e cheinho de relatos de gente que foi feliz, em épocas de Bom Dia Teresina.

Veja alguns:

Nos&Elis , o palco onde cabia todos , porque a arte que se respirava.“ (Rosilândia Melo)

“ Ali rolava política, muito jazz, muita conversa, drogas evidentemente, e flertes que acabavam numa noite de amor na maioria das vezes." (João Cláudio Moreno)

“Bastava sair um novo disco do Chico, do Caetano, Gil ou do Milton, pronto, tinha discussão nas mesas do Nós e Elis. Um novo filme, um livro, futebol, até fórmula um, tudo era motivo pra gente se encontrar lá.” (Aurélio Melo)
.
 
















5 comentários
 
Jocamigo, acabei de ler o livro e fiquei com mais saudades ainda dos meus amigos de adolesc em Parnaíba, os manos Fontelles. A Aninha foi a primeira namorada, ficamos, na verdade, e até o fim foi uma pessoa que me defendeu a honra, demonstrando sem tergiversar o mesmo carinho e apoio de sempre. Eu amo muito essa menina, pelo apoio incodicional quando todos e me judiavam e principalmente pelo ser maravilhoso e lindo que ela é. Deus não permite gente ruim morrendo logo, quer que elas fiquem aqui neste inferno, sofrendo. Agora os bons, os muito bons, podem partir mais cedo. Não sei, é muito triste a partida em flor, revolta a gente, eu também queria estar lá. Sofre muito quem fica, sofre muito a arte, que precisa dessas pessoas nobres, de muita luz. Eu não frequentei o bar, morava em Fortaleza, mas frequentei o livro e posso voltar quantas vezes quiser, até o fim da vida, enquanto durar, para sempre. Beijos, amigos Fontelles, e meu carinho e amor muito especial pela doce e fiel amiga Aninha, de um talento enorme como ser humano, uma testemunha ímpar que me apoiou no momento em que quase a cidade inteira me criticava e me virava as costas. Eternamente a minha gratidão. Carlos Quaresma Dos Santos
Comentado por
Carlos Quaresma em 14/06/2011 - 11:12
O nós e Elis tem significado pra mim também, Camila. Meus pais iniciaram suas carreiras artísticas lá, e mais, se conheceram lá, namoraram lá, sonharam com o meu nascimento lá. Então, só consigo pensar no n´ós e elis cheia de carinho e uma saudade do que nem vivi. beijos!
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Clara Mello em 26/05/2011 - 15:58
A primeira vez que vi “Nos e Elis”, devia ter uns 12 anos. Lia poema de minha prima Elizabeth Rêgo, que falava sobre uma mulher sentada sozinha num bar chamado Nós e Elis, rabiscando palavras de amor num guardanapo. Mais tarde, já com quinze, conheci aquele reduto de tudo o que eu admirava em forma de música. Lembro bem da primeira vez. De ouvir Bibio, de sentar desajeitada entre pessoas desconhecidas, e tão mais velhas, e tão mais interessantes que meu mundinho adolescente... Era tempo de descoberta. De achar-me crescida, adulta, gente. E de conhecer a dor de amar [achar que amava, melhor dizendo] e não ser correspondida. Foi quando descobri que minhas palavras escritas aliviavam as dores do peito, e fiz o primeiro de poema. O poema, que tinha o nome do bar que foi delícia e dor, mereceu ser publicado no jornal do colégio Diocesano, como ganhador do concurso de poesia da 7ª série. Nascia uma escrivinhadora de coisas que não sabem caber dentro de mim. A surpresa com o texto da Camila, foi tripla: ver por outros olhos o reconhecimento do talento para a escrita que sempre soube que ela tinha [obrigada, Joca!]; ver a sensibilidade dela em entender tão bem o espírito daquele lugar; e, saber que um bar foi capaz de, ainda que há tanto tempo fechado, atravessar três gerações. Viva a memória Teresinense. Salve quem sabe cultivá-la, e dar a ela a devida importância. Salve, Joca! Salve, Camilotinha! p.s. como a Camila, e não deve ser por acaso, falo muito. Escrevo muito. Perdão. rs.
Comentado por
Samara em 28/04/2011 - 10:53
Amora, fui ao Nos&Elis uma unica vez, com meus pais e a turma deles. Eu era criança, mas nunca esqueci... e ao ler teu texto senti muita saudade de um tempo que eu não vivi, ou que eu vivi na epoca do Palmares, do Melodia, por exemplo... Mas claro, gostaria que as coisas voltassem a ser como o descrito ali em cima! bjocas
Comentado por
thalissa drummond em 27/04/2011 - 15:50
Belo texto da Cami. Fantástica essa menina!
Comentado por
Vivaldo Simão em 27/04/2011 - 12:04
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