Operação Cesariana
Desliza o bisturi sobre a pele macia...
Gotas rubras rorejam na deiscência branca.
Uma pinça hemostática estala metálica
e estanca o sangue.
Prossegue a operação, metódica, pausada.
No silêncio da sala
manchas de som retinem do aço do instrumental.
Gritos de sangue vivo partem das compressas.
Há no ambiente uma seriedade
igual à que antecede
o ato de amor.
Os olhos do cirurgião não desviam
do campo operatório.
Suas mãos emitem ordens
em silêncio atendidas.
Quando o útero é rompido, a natureza revolta-se.
É uma agressão às suas leis.
Ao mesmo tempo sente-se orgulhosa
por ter criado o cérebro do Homem
que repara suas falhas...
E da vida que brota, entre pinças e gazes,
parte o primeiro choro – é um grito de espanto
de quem, logo ao nascer, vê o mundo primeiro
através de uma névoa do sangue
da própria mãe.











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