Estórias do Tempo Antigo - VII
COLEGA ZÉ LOPES
José Expedito Rêgo
José Lopes de Sousa, ou ZÉ DE SINHARINHA, no costume oeirense de apelidar as pessoas lembrando a filiação. Tipicamente nordestino, magro, raquítico, baixinho, pele amarela, irrequiado, conversador. Para ele, todo mundo era colega, motivo de ser conhecido por Colega Zé Lopes. Comerciante, tinha uma bodega numa esquina de rua. Mas gostava mesmo era de negociar com cavalos. Comprava um poldro novo, punha-lhe argola nas patas, ensinava-lhe uma marcha ligeira, um esquipado aflito como o próprio dono, saiu pelas ruas, de espora e chicote, brilhando sobre o animal sofrido. Riscava em frente de um bando de matutos, na feira dos sábados: – quer comprar um cavalinho bom, colega! Até parecia um cigano.
Usando de cortesia, ao conversar, empregava sempre o possessivo plural, ao referir-se às próprias coisas. Era nosso chapéu, nosso cavalo, nosso sapato. Até que um dia, ao apresentar a esposa a um amigo, falou: – Aqui é a nossa esposa Vitória: - Dona Vitória, de quem teve inúmeros filhos, era filha do Sr. Plínio, da família Freitas.
Dono de memória prodigiosa, colega Zé Lopes relatava, com abundância de pormenores, estórias do tempo antigo. Esmiuçava tudo, paisagem campestre e urbana, nome de personagens, famílias, nada escapava a sua narrativa. As estórias que narro a seguir foram contatas por Colega Zé Lopes.
Ilustrações: Francisco Leandro
Um casal de mentirosos
Não sei se o Colega Zé Lopes, alguma vez, ouviu falar do Barão de Munchhausen. A estória que reproduzo, agora, parece, todavia, bebida na fonte das Narrativas Maravilhosas.
Morava, no beco do Sérvio, um casal de mentirosos, D. Joaquina e Pedro-Sem-Vintém, seu marido. Gente pobre, Pedro, um mulato claro, e a mulher, branca, filha de portugueses, tinha umas tias vivendo à margem do Minho, com as quais se correspondia. Mantinha-se das parcas rendas de um quinta, do outro lado do Mocha.
De uma feita, junto à correspondência chegada de Portugal, as tias mandaram um pacotinho contendo sementes de abóbora. A carta informava que eram frutas muito especiais, de tamanho avantajado, que enviavam à querida sobrinha, na esperança de que bem se adaptassem ao clima piauiense.
As sementes foram plantadas, o ano foi de bom inverno, as ramas da cucurbitácea encheram um recanto da pequena roça, numa exuberância verde. Naqueles tempos de falta completa de água encanada, o líquido indispensável a satisfazer a sede e demais necessidades domésticas vinha do olho-d’água municipal, trazida em ancoretas de madeira em costas de jumentos. Toda família tinha o seu asno de carregar água e cangueiro para tal serviço.
Um dia, o moço aguadeiro demorou demais a trazer o primeiro caminho d’água. D. Joaquina estava impaciente, não tinha sequer o líquido necessário para colocar o feijão no fogo. Daí a pouco, chega o rapaz, perplexo. O jumento não fora encontrado na roça, por mais que procurasse. As porteiras estavam todas muito bem fechadas, não havia buraco nas cercas, e nada de animal. Às vezes, escutava o chocalho do bicho tocando bem de longe e era só. D. Joaquina resolveu ir pessoalmente ver do que tratava. Lá chegando, procurou, acompanhada do cangueiro, ouviu o chocalho. Seguindo o rumo do som, chegou perto dos pés de abóbora. Notou vários frutos, todos grandes, mas um deles era quase gigantesco. Aproximou-se deste, viu um orifício de lado. Preocupou-se, algum parasito estragava as abóbodas. Chegou mais perto e olhou pelo buraco. Lá dentro, bem fagueiro, comendo o miolo da enorme fruta, esta o sem-vergonha do jumento. Mandou que o roceiro o puxasse pelo rabo. Estava desfeito o mistério.
O senhor Pedro-Sem-Vintém não ficava atrás. Gostava de caçar. Um dia saiu com sua espingarda lazarina, tentando pegar algum jacu, de corso, era no tempo do inharé. Andava em volta do Morro do Leme, topou um bando dos procurados crocídeos, deu vários tivos, matou oito. Depois, desperdiçou chumbo em nambus e juritis. O sol esquentava, lembrou-se de uma bonita laranja que trazia na capanga. Sentou-se no chão, à sombra de frondoso tamboril, procurou o canivete, no bolso da jaqueta, tirou da sacola, descascou-a e chupou com muito gosto a deliciosa fruta, estava com sede. Guardou a semente, a fim de plantar na roça, valia a pena.
Ia levantar-se para o regresso quando avistou, a pequena distância, um imponente veado. Procurou munição e, para desespero, não encontrou mais chumbo. Diabo! Deixar de matar um bicho daqueles, tão grande! Foi quando se lembrou dos caroços da laranja. Carregou a espingarda com os grãos úmidos, fez pontaria, puxou o gatilho. O animal saiu correndo. O tiro foi certeiro, mas, usando sementes de laranja, no lugar de chumbo, não podia mesmo abater a caça.
Passaram-se os anos. De outra vez em que voltou a passarinhar no mesmo local, espantou-se ao deparar com um frondoso pé de laranja, carregado de frutos maduros, ali em plena mata. Ninguém plantaria laranja naquele lugar. Estava com sede, no entanto, e os frutos pareciam saborosos, grandes e amarelos. Aproximou-se da estranha fruteira e, grande espanto! Ela saiu correndo em disparada, por trás de uma fechada moita de mofumbo. Foi então que se lembrou. Era o veado, no qual atirara com sementes de laranja. A árvore nasceu e frutificou entre as costelas do belo catingueiro.