COLEGA ZÉ LOPES
José Expedito Rêgo
José Lopes de Sousa, ou ZÉ DE SINHARINHA, no costume oeirense de apelidar as pessoas lembrando a filiação. Tipicamente nordestino, magro, raquítico, baixinho, pele amarela, irrequiado, conversador. Para ele, todo mundo era colega, motivo de ser conhecido por Colega Zé Lopes. Comerciante, tinha uma bodega numa esquina de rua. Mas gostava mesmo era de negociar com cavalos. Comprava um poldro novo, punha-lhe argola nas patas, ensinava-lhe uma marcha ligeira, um esquipado aflito como o próprio dono, saiu pelas ruas, de espora e chicote, brilhando sobre o animal sofrido. Riscava em frente de um bando de matutos, na feira dos sábados: – quer comprar um cavalinho bom, colega! Até parecia um cigano.
Usando de cortesia, ao conversar, empregava sempre o possessivo plural, ao referir-se às próprias coisas. Era nosso chapéu, nosso cavalo, nosso sapato. Até que um dia, ao apresentar a esposa a um amigo, falou: – Aqui é a nossa esposa Vitória: - Dona Vitória, de quem teve inúmeros filhos, era filha do Sr. Plínio, da família Freitas.
Dono de memória prodigiosa, colega Zé Lopes relatava, com abundância de pormenores, estórias do tempo antigo. Esmiuçava tudo, paisagem campestre e urbana, nome de personagens, famílias, nada escapava a sua narrativa. As estórias que narro a seguir foram contatas por Colega Zé Lopes.
Ilustrações: Francisco Leandro
RAIMUNDO QUINTINO
José Expedito Rêgo
Raimundo Quintino pertencia a boa família, morava na praça da Matriz, perto do sobrado da antiga Câmara Municipal. Suas irmãs, Raquel e Margarida, eram moças prendadas, frequentavam a melhor sociedade. Seu pai, o Mestre Rodrigo, era músico famoso, dirigia a conhecida Banda Vitória.
Quintino era afilhado do senhor Bugyja, comerciante considerado e muito querido pelo bom procedimento. Protegia o afilhado, dava-lhe incumbências de confiança. Mandava-o frequentemente ao Vio, atual São Francisco do Piauí, a fim de comprar maniçoba, para revenda aos exportadores. Raimundo desempenhava-se bem dos negócios, mas a ambição e o mau caráter desviaram-no para o crime.
De volta de umas dessas viagens ao lugarejo próspero, chegou de mãos abanando, tinha perdido o dinheiro das compras, no jogo. Inventou que havia maniçoba com grande fartura, a quantia que levava tinha sido insuficiente, precisava de mais numerário para pagar os negócios que deixara fechado. Não trouxe a mercadoria já adquirida, preferiu transportá-la de vez, no próximo regresso. O velho Bugyja desconfiou da conversa, preferiu ir ele próprio ver a coisa de perto. Seguiu em companhia de Quintino e de um pajem.
Viagem penosa, pelos sertões, dormia no meio do mato, protegidos por frondosa árvore. Acamparam à noitinha, Quintino e o pajem soltaram os animais de sela e de carga, peados, para que pastassem nas redondezas. Armaram-se as redes nos galhos mais baixos, fez-se o fogo para o café de boiadeiro, tirou-se o frito dos alforjes, a cabaça d’água foi posta ao vento, para refrescar. Terminada a ceia simples e gostosa, temperada pela fome, acomodaram-se nas redes, para o sono reparador. O fogo permaneceu aceso, na intenção de afugentar algum animal indesejável. O silêncio era cortado por algum inseto ou ave noturna, o estalido dos garranchos na frieza do sereno.
De madrugada, ainda escuro, Raimundo Quintino mandou o pajem procurar os animais. O padrinho dormia, o rosto coberto com branco lençol. Quando notou que o rapaz estava afastado o bastante do acampamento, pegou o rifle, sempre carregado, e, por entre os cordões da rede, enfiou o cano, disparando, à queima roupa, na cabeça do velho adormecido. Em seguida, começou a gritar, chamando o pajem, ao mesmo tempo em que dava vários tiros para o alto.
O moço que tinha ido à procura dos animais, chegou esbaforido, indagando o que tinha acontecido.
–
Fomos assaltados! Gritou Quintino.
–
Parece que mataram o meu padrinho! Botei os danados prá correr, a troco de bala!
O lençol cobrindo a cabeça do velho Bugyja estava manchado de sangue. Quintino puxou com cuidado, mostrando o rosto desfigurado pela morte. O pajem ficou muito aflito, era um jovem inexperiente, pôe-se a chorar.
–
Larga de choro, rapaz! Você tem que voltar para Oeiras, já, avisar os parentes, chamar o Delegado. Eu fico aqui, montando guarda a meu padrinho
Depois que o moço saiu, cavalgando a melhor montaria, Quintino tratou de preparar o ambiente, para simular o Assal. Correu em várias direções, fazendo rastos, quebrou galhos de árvores, cortou a facão os punhos da própria rede.
O Delegado era o senhor Plínio Freitas, sogro de Colega Zé Lopes. Chegou cedo da tarde, em companhia de dois soldados, um filho de Bugyja e mais alguns caboclos armados de facão. Quintino contou a sua história, mas o Delegado ficou desconfiado. Não havia qualquer notícia de bandidos por aquela região. Examinou os galhos quebrados, os punhos da rede cortados, os ratos que pareciam de uma só pessoa, por sinal, iguais aos de Quintinho. Pôs os soldados de sobreaviso e deu ordem de prisão ao criminoso. Quintino amarelou:
–
Seu Plínio, o que é isto?
–
É isso mesmo rapaz! Você está preso! No chão só tem rasto seu e por aqui não há bandidos que se saiba.
Amarrado pelos soldados, com os braços para trás, foi posto sobre a sela de sua cavagadura. Voltaram a Oeiras no mesmo dia, o cadáver no rede, carregada por dois homens, Quintino entre os policiais atentos.
Na delegacia, confessou tudo. Mas conseguiu fugir, duas noites depois, indo abrigar-se em casa de seu amigo, Cinobilino Gomes, na vizinha cidade de Simplício Mendes. Cinobilino, no entanto, era homem do bem, prendeu-o, devolvendo à polícia. Julgado, foi condenado a trinta anos de prisão.
A política, nas pequenas cidade, sempre foi bipolar: partido do governo e partido da oposição. Por esse tempo, o Sr. Alano Beleza era intendente.Dr. Cândido Martins, da oposição, o juiz de direito. Alano protegia a família de Quintino, seus correligionários. Tooda vez que, aproveitando as facilidades do carcereiro, Manoel Antônio, o Quintino fugia. O Dr. Cândido expedia um mandado de prisão. O forgido continuava em Oeiras, na vida de sempre, jogando e bebendo nos botecos da periferia. Numa dessas fugas, foi preso pelo soltado Tomás-Beiço-Lascado, um cabra valente, que aceitou cumprir a ordem do juiz. Foi encontrado numa banca de jogo, no Capão, entrou na cidade acorrentado. Raquel e Margarida, quando viram o irmão em ferros, tomaram as imagens dos santos, do oratório doméstico, saíram correndo pela praça, gritando lamentações, ajoelharam-se em frente às autoridades, suplicaram clemência. Em vão! Dr. Cândido saiu de sua residência, do outro lado do largo da Matriz, fez um belo discurso, elogiando a ação do soldado Tomás, execrando a índole do criminoso perverso. Dada a pouca segurança da prisão em Oeiras, Quintino foi levado para Teresina, a pedido do Dr. Cândido. Veio buscá-lo um oficial de polícia, o Ten. Gérson. Seguiu acompanhado de numerosa escolta.
Na prisão de Teresina, continuou a mesma vida folgada. Saía todas as noites para jogar e beber no botequins. Tornou-se chefe de quadrilha, amealhou fortuna. Numa dessas saídas noturnas, foi acidentado, fraturou uma perna, ficou aleijado, terminou tuberculoso, morreu na prisão.