FÁBRICA DE LATICÍNIOS DOS CAMPOS: 110 ANOS
No dia 9 de abril último, a cidade de Campinas do Piauí viveu um dia diferenciado: é que, para comemorar os 110 anos da inauguração da “Fábrica de Laticínios dos Campos” e os 150 anos do nascimento de seu idealizador, o Dr. Antonio José de Sampaio, encontraram-se na cidade delegações da Fundação Cultural do Piauí - FUNDAC, do Instituto do Patrimônio Histórico Nacional - IPHAN, e uma plêiade de conselheiros e convidados da Fundação Nogueira Tapety – FNT e a população citadina.
A FUNDAC e o IPHAN vieram exibir, na cidade, o documentário “Fábrica de Manteiga e queijo...” produzido pelo IPHAN em parceria com a Associação Brasileira de Documentaristas - ABD-PI. À tarde, em várias escolas e, à noite, em um telão defronte à Fábrica. O documentário foi bastante aplaudido por todos.
A FNT, além de participar da exibição do documentário, organizou uma festa comemorativa das efemérides (com direito a bolo e discurso). Até o Hino Nacional foi entoado pelos presentes.
As datas, no entanto, não foram comemoradas apenas em Campinas do Piauí. Em
discurso da tribuna, o senador João Vicente Claudino, lembrou a data e declarou-se aderente à causa da restauração da “Fábrica de Laticínios dos Campos”. O professor Fonseca Neto utilizou-se de sua
coluna semanal no “Diário do Povo” para escrever sobre o significado da comemoração dos 150 anos do nascimento de Antonio José de Sampaio. Comentando o livro do professor Marcos Vilhena, “Vôo de Ícaro - tensões e drama de um industrial no sertão”, lembrou o quanto ainda é necessário resgatar a memória do visionário cientista.
CAMPANHA FÁBRICA DE SONHOS
Todas essas manifestações representam o coroamento de uma campanha promovida, desde junho último, pela Fundação Nogueira Tapety – FNT, visando a restauração da “Fábrica de Laticínios dos Campos”. O principal instrumento inicial da campanha foi uma “Carta Aberta ao Governador do Piauí” quando foram colhidas cerca de mil assinaturas protocoladas devidamente na Secretaria de Estado de Governo.
Em dinâmica própria, o eixo inicial da campanha mudou, deixando de ser um incentivo à busca de um Mecenas, via Lei Rouanet – evidentemente inexistente – para tornar-se uma luta pelo tombamento, em nível federal, do supracitado edifício como estratégia para obter a almejada restauração do prédio.
Não por acaso,
a proposta de tombamento, formalizada pela FNT junto ao IPHAN, foi protocolada no dia de Santa Luzia, 13 de dezembro de 2006, apenas alguns dias após o aparecimento de dois livros, o já aqui citado
“Vôo de Ícaro - tensões e drama de um industrial no sertão”, do historiador Marcos Vilhena, lançado em Teresina na Oficina da Palavra, no dia 19 de novembro de 2006 e o outro
“Os 500 Anos do Leite no Brasil”, de João Castanho Dias, livro que, ricamente ilustrado, demonstra o pioneirismo da iniciativa do Dr Sampaio ao construir a segunda mais antiga Fábrica de Laticínios do Brasil.
Outra adesão importante à campanha se daria através da repercussão do livro do historiador que mereceu rasgados elogios – o livro, seu autor, e o programa de pós- graduação da UFPI – em
discurso pronunciado no dia 12 de dezembro de 2006 na tribuna da Câmara Federal pelo deputado Nazareno Fonteles, vice-líder do PT naquela casa legislativa. Encantado com o tema, Fonteles decidiu ratificar,
através de ofício enviado ao presidente do IPHAN em todos os seus termos a proposta de tombamento apresentada pela FNT.
O Bispo da Diocese Oeiras-Floriano, Dom Augusto Rocha,
em ofício protocolado no IPHAN, manifestou seu apoio incondicional à proposta de tombamento apresentada pela FNT, lembrando os tempos em que o prédio abrigou sacerdotes que por ali passavam em desobriga.
Por solicitação da Câmara Municipal de Campinas do Piauí, a Assembléia Legislativa do Piauí – ALEPI, enviou ao presidente do IPHAN, Luiz Fernando Almeida, em Brasília, uma
Moção de Apelo solicitando seu especial empenho na tramitação e final aprovação da proposta de tombamento da Fábrica. Convém lembrar que, anteriormente, pedidos nos arquivos do IPHAN, já havia dois outros iguais pedidos:
o primeiro, apresentado em 1977, pelo então Procurador Geral do Estado, Dr. José Eduardo Pereira e o outro, um abaixo assinado, constante de quase 400 signatários campinenses, formalizado em 2000,
por ofício da então Secretária Municipal de Educação, Professora Maria do Socorro Alves Moura, que suplica “por tudo o quanto é sagrado” a restauração de aludido prédio.
Um outro inesquecível marco da campanha foi, sem sombra de dúvidas, a “Visita dos Intelectuais à Fábrica de Sonhos”, organizada pela FNT, realizada no dia 24 de janeiro de 2007 (Dia da Adesão do Piauí ao Grito do Ipiranga) e capitaneada pelos professores Cineas Santos e Fonseca Neto, visita que contou com o decisivo apoio da reitoria da UFPI que disponibilizou o transporte dos intelectuais saindo de Teresina e passando por Oeiras até Campinas do Piauí. Nos jornais teresinenses, a visita rendeu a primeira reportagem de capa (na edição dominical do Diário do Povo do Piauí, 30 de janeiro de 2007) sobre a Fábrica de Laticínios de que se tem notícia.
A adesão de tantos políticos, líderes religiosos, intelectuais e participação engajada da comunidade local ilustra uma campanha vitoriosa, e o encaminhamento dado pelo IPHAN no sentido da aceleração dos estudos técnicos também denota isto. A campanha, no entanto, foi bem mais longe! Milhares de e-mails recebidos e enviados; a troca de ofícios com órgãos públicos e privados; a publicidade dada no “Portal do Sertão” (www.fnt.org.br), sítio virtual da FNT, para a “Fábrica de Sonhos”; dezenas de artigos publicados em portais tanto de Teresina como em nível nacional; enfim, uma profusão de comunicações pontuais e difusas que, reunidas, formariam um livro.
FÁBRICA DE SONHOS EM CHAMAS
Se perguntarem a qualquer um dos mentores do movimento patrimonial qual o dia mais importante da campanha eles não terão nenhuma dúvida em responder: 15 de julho de 2006!
Nesta data, às 5:30h da manhã, o presidente da FNT, Carlos Rubem, recebeu o telefonema de uma campinense que, aflitíssima, lhe comunicou o incêndio que irrompera há poucas horas. Meio transtornado, sem ter a dimensão exata do sinistro, Carlos Rubem temia pelo objeto da campanha, há pouco mais de quinze dias, lançada pela FNT.
Convocado por Bill (Carlos Rubem), Joca Oeiras procurou enviar a notícia do incêndio à imprensa teresinense sendo que um dos portais contatados a única coisa que perguntou foi sobre a existência ou não de vítimas fatais... Telefonemas foram dados a autoridades e ao Corpo de Bombeiros. Ao chegarem em Campinas do Piauí, foram tranqüilizados pela visão da imponente chaminé do velho prédio que se mantinha intacta. O incêndio se localizava apenas numa ala lateral. Segundo Joca Oeiras, “quando ali chegamos ainda havia grandes focos do sinistro e para logo a população, mobilizada, enfrentou as chamas com o aproveitamento da rede de água pública”. Neste ínterim, eis que surge a figura de um herói doméstico, Flávio Borges (leia
entrevista), que, intrepidamente, subiu no telhado e conseguiu debelar, no final da tarde, os últimos resquícios do incêndio.
Enquanto isto ocorria, o povo mais e mais se mobilizava em torno da Fábrica assinando manifesto, protestando e muitos até chorando como se a fábrica estivesse em pleno funcionamento. “Por proposta nossa, o povo, numa patente manifestação da importância que atribui aquele ícone sertanejo, promoveu um “Abraço à Fábrica de Sonhos”, de extrema simbologia”, ressalta Rubem.
Outro instrumento da campanha estará sendo lançado em breve. Trata-se de um
cartaz que traz fotografia da Fábrica (a estampada na capa deste jornal) assinada por André Pessoa e pelo design
Edmo Campos. A causa preservacionista é de todos!