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13/02/2007 - 13:04
Eu e o governador

  Joca Oeiras

Eu tenho um jovem amigo, Fernando Reis Barroso, de 18 anos, que, representando o pai, recentemente falecido, recebeu, em Oeiras, no último dia 24 de janeiro, a Medalha do Mérito Mafrense, honraria conferida pela municipalidade e posou ao lado do governador Wellington Dias. A foto que registra este fato foi parar no seu álbum do orkut com a seguinte legenda: “Eu e o governador....será que o destino está traçado?”
O Fernando não esconde de ninguém a sua precoce vocação para a política ou, se preferirem, que foi contaminado por esse vírus. De minha parte, mesmo quando jovem, nunca tive a menor propensão para a disputa do poder, mesmo não sendo politicamente alienado (tive, durante anos, militância política regular no Partido dos Trabalhadores - PT).
Quem me conhece sabe, no entanto, que tenho, por diversas vezes, redigido cartas dirigidas ao governador Welligton Dias à procura de um diálogo.
Mas hoje, inspirado no Fernando, cuja ambição é, entre outras, ocupar a cadeira onde hoje se assenta Wellington Dias, vou usurpar o lugar de Sua Excelência para redigir e assinar uma cartinha dirigida ao presidente do IPHAN, pois soube, inclusive, que eles são bons companheiros.
 
Ao Luís Fernando de Almeida
Presidente do IPHAM
 
Caro amigo:

Primeiramente espero que, ao final desta carta, não fique a impressão que provavelmente ficará de início: que, ao tratar do assunto, o governador do Piauí busca exonerar-se de suas responsabilidades.
Digo isto porque falo de  um bem tombado em nível estadual (Decreto 7.298/88), a antiga “Fábrica de Laticínios dos Campos”, inaugurada em 1897, cujo prédio, em escombros, encontra-se hoje no município de Campinas do Piauí. Foi vítima da incúria e da ganância dos governantes da época que malbarataram ou foram coniventes com a dilapidação daquele patrimônio. O edifício passa por uma reforma emergencial, providência que tomei imediatamente após da ocorrência de um incêndio numa de suas alas laterais. Mas carece de uma restauração, orçada em R$ 780.000 pelos técnicos da Fundac.
A Fábrica originou-se de um Contrato de Arrendamento de Terras entre o Tesouro Nacional e o Dr. Antonio José de Sampaio, em abril de 1889, meses antes do advento da República. As cláusulas contratuais a que se submetia o arrendatário tinham muita semelhança com uma carta programática de algum partido político progressista como, por exemplo, o aproveitamento da mão de obra escrava remanescente; introdução de melhoramentos genéticos na gadaria; montar estabelecimento para o preparo de charque e congêneres; introdução de melhoramentos técnicos na lavoura; fundação de núcleos habitacionais com  colonos nacionais e imigrantes estrangeiros; além, é claro, da construção da Fábrica de Laticínios com máquinas e técnicos europeus.
A área arrendada, cerca de 17 fazendas, fazia parte das afamadas Fazendas Nacionais (Inspeções de Canindé e Nazaré). Como é do seu conhecimento, as Fazendas Nacionais do Piauí pertenceram originalmente a Domingos Afonso Mafrense – considerado o maior desbravador e povoador  do Piauí – que, em 1711, pouco antes de morrer, as deixou em testamento para os jesuítas. Com a expulsão desses missionários, as Fazendas passaram à propriedade do El Rei de Portugal e, com a Independência, à nação brasileira.
Só para sublinhar, meu bom Luiz  Fernando, falamos até aqui de atos e fatos ocorridos no Piauí, mas, inequivocamente, atinentes à Historia do Brasil, onde o envolvimento do poder central é explícito.
Por mais parcial e regionalista que seja, e inegavelmente é, a historiografia brasileira, os acontecimentos aqui relatados integram-na sem nenhuma chance de serem escamoteados.
Até aqui falamos da base material que possibilitou ao Dr Antonio José de Sampaio  levar avante a construção da “Fábrica de Laticínios dos Campos”.
Para inaugurá-la foi preciso “transportar a maquinaria do porto de Colônia para Campos, construir uma estada carroçável numa extensão de 40 léguas. O pior era transportar a caldeira, pesando toneladas. O Dr Sampaio trouxe  da Europa um carroção de ferro e engatou em juntas de bois e mandou cobrir a estrada com milhares de couros para que o carroção pudesse deslizar com a caldeira”, como relata Odete Vieira da Rocha. Depois de incontáveis peripécias como estas, foi finalmente inaugurada a Fábrica, em 15 de abril de 1897. Para o economista Felipe Mendes, “a experiência, se bem sucedida, teria criado um governo paralelo no Piauí, tamanha a área privatizada.”
Um estudo acadêmico, originalmente uma dissertação de mestrado do historiador Marcos Vilhena, publicado em livro lançado em novembro último, se, de um lado, trouxe luz à figura do  Dr Antonio José de Sampaio, o que mais fez foi lançar indagações sobre a vida  do visionário cientista, colocando na ordem do dia o interesse para encontrar respostas tanto fáticas (onde morreu? onde está enterrado? quando e onde casou-se? quantos anos sua mulher a ele sobreviveu? onde nasceu Dona Augusta Sampaio?) como teóricas, ou teórico-práticas, tais como: teria Sampaio razão a respeito da qualidade das pastagens nos “Campos”? Como seria o Piauí se tivesse vingado, como um todo, o empreendimento do Dr. Sampaio?
Discursando na Câmara Federal, o Deputado Nazareno Fonteles, também meu amigo e correligionário, fez inúmeros elogios ao livro de Vilhena, inclusive falando da oportunidade de sua publicação quando meu governo procura modernizar o Piauí, visto que a figura de Sampaio pode se constituir num verdadeiro ícone da modernidade.
De minha parte, seja como for, acho que o empreendimento de Sampaio coloca o Piauí na História da Indústria Nacional, e faz do Dr Sampaio um industrial pioneiro nos Sertões de Dentro do Piauí, como o foram em seus Estados o Barão de Mauá e Delmiro Gouveia.
Também no mês de novembro foi lançado, em comemoração aos 30 anos da Embrapa Gado de Leite, o livro “500 anos do leite no Brasil”, ricamente ilustrado e que dedica mais de duas páginas de seu conteúdo ao Dr. Sampaio e sua “Fábrica de Laticínios dos Campos”, que é classificada como  a primeira fábrica de laticínios do nordeste e a segunda do Brasil e o Dr Sampaio qualificado como “um pioneiro”.
E em 13 de dezembro último, o meu amigo Bill, presidente da Fundação Nogueira Tapety – FNT, protocolou, junto à caríssima Diva Figueiredo (19ªS/R IPHAN), proposta de tombamento, em nível Federal, da Fábrica (não sei se a notícia já chegou aos seus ouvidos).
É justamente para hipotecar solidariedade a essa meritória iniciativa da FNT que decidi escrever esta carta que, se ficou um pouco longa,  foi só porque eu procurei deixar claro  que não se trata de mero oportunismo de minha parte e sim do entendimento de que o  Piauí merece, o Dr Antonio José de Sampaio merece, o povo de Campinas do Piauí merece e, principalmente, o Brasil merece ter aquele emblemático marco sertanejo reconhecido como um Monumento Nacional. Agora, se nada der certo, e o entendimento do IPHAN for diverso do nosso, não fugirei às minhas responsabilidades.
Por ser tudo, despeço-me, fraternalmente



Wellington Dias
Governador do Piauí

* Título de um famoso livro da escritora/messalina, Adelaide Carraro, a respeito de suas relações libidinosas com o então Governador Ademar de Barros, Estado de São Paulo, nos anos dourados.

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