“Servimo-nos do presente para informar que há interessa da Petrobras na contratação de patrocínio ao projeto ‘Restauração da Fábrica de Laticínios’”.
Foi dessa forma, simples e direta, que a Gerente de Patrocínios da Petrobras, Sra, Eliane Costa,
em ofício datado de 25 de junho de 2008, tomou a iniciativa de informar à presidente da Fundac, Sra. Sonia Terra, que o tão acalentado Sonho de ver restaurada a Fábrica de Laticínios dos Campos está em vias de tornar-se realidade.
Abraçada como foi, há exatos dois anos, pelos campinenses – que, naquele mesmo dia 15 de julho de 2006, diante de um incêndio irrompido em uma das laterais do prédio, chegaram a temer pelo seu perecimento – a Fábrica de Sonhos, energizada por aquele gesto de grande simbolismo e alto espírito de civilidade, veio, de lá para cá, ocupando, mais e mais, os corações e as mentes de personalidades as mais diversas O engenheiro aposentado Paulo de Sá Campos, morador de Olinda-PE, aderiu, de corpo e alma, à Campanha capitaneada pela Fundação Nogueira Tapety-FNT, passando a investigar, por sua própria conta e risco, pistas a respeito do paradeiro do cientista Antonio José de Sampaio tendo promovido pesquisas até na Alemanha e encontrado indícios de que a esposa do cientista sobreviveu muitos anos a ele sendo, inclusive, autora de livros o ultimo deles publicado em 1963. Em novembro de 2006, o professor Marcos Vilhena publicou
“Vôo de Ícaro, tensões e drama de um industrial no Sertão” sua dissertação de mestrado transmigrada em empolgante livro onde o autor esmiúça a relação conflituosa entre a modernidade, representada pelo cientista Antonio José de Sampaio, e o pensamento patriarcal e oligárquico hegemônico no Piauí de antanho, o que, segundo ele, explica a derrocada do empreendimento de Sampaio. O livro de Vilhena chegou às mãos do Deputado Nazareno Fonteles que, da Tribuna da Câmara Federal, pronunciou, em 12 de dezembro de 2006 discurso enfatizando a importância do livro e a relevância da luta pela restauração daquele monumento. O mesmo Deputado, dias mais tarde, enviou um documento ao IPHAN ratificando, em todos os seus termos a nossa proposta de tombamento da Fábrica.
Em 24 de janeiro de 2007, uma caravana de intelectuais, organizada pela FNT, e capitaneada pelos professores Cineas Santos e Fonseca Neto veio a Campinas do Piauí para conhecer “in loco” as ruínas da Fábrica.
Ainda no primeiro trimestre de 2007, o IPHAN produziu, em parceria com a Associação Brasileira dos Documentaristas, seção do Piauí ABD-PI um documentário intitulado “Fábrica de Manteiga e Queijo das Fazendas Nacionais do Piauí, uma história contada por seus trabalhadores”, roteirizado e dirigido pelo historiador da instituição, Ricardo Augusto Pereira.
Em 9 de abril de 2007 a FNT, o IPHAN e a Fundac organizaram, em Campinas do Piauí, as comemorações pelos 110 anos decorridos desde a inauguração da Fábrica e os 150 anos do nascimento do cientista-empresário Antonio José Sampaio. Neste mesmo dia, na tribuna do Senado Federal, em Brasília, o Senador João Vicente Claudino pronunciou um discurso em favor da restauração da Fábrica de Laticínios dos Campos. Dias antes, em 29 de março de 2007, o Senador já havia enviado
ofícios à Petrobrás, Fundação Banco do Brasil, Fundação Roberto Marinho e Companhia Vale do Rio Doce, solicitando a estas empresas e fundações a alocação de recursos para a restauração da onírica Fábrica.
Teria ainda muita coisa para contar, não tenham dúvidas! Foi uma intensa Campanha. Envolveu pessoas, como o fotógrafo André Pessoa, que apenas por amizade e solidariedade para com nosso entusiasmo, se dispôs a realizar um ensaio fotográfico cujo resultado ficou tão belo plasticamente que até nos faz esquecer que aquele é um edifício em ruínas. Não se trata aqui, no entanto, de fazer um
relatório** circunstanciado.
Essas lembranças, esse olhar para trás serve para nos fazer enxergar o caminho até aqui, pois este é um momento especial, particularmente gratificante para quem, como nós, palmilhou cada centímetro do percurso.
Hoje ficamos sabendo que há uma firma, a Petrobras, disposta a bancar a restauração da Fábrica de Sonhos, isto é, ficamos sabendo que tem realidade o sonho acalentado por nós, e nos lembramos da
carta-dossiê redigida pelo presidente da FNT Carlos Rubem Campos Reis que foi
enviada, em 12 de março de 2007, à arquiteta Jurema Machado, consultora da Unesco e membro do Conselho permanente da programa Petrobras Cultural. Nesta carta, falando em nome da entidade, Carlos Rubem afiançava que o que pretendíamos era dar “uma mostra da importância desse verdadeiro ícone sertanejo, não apenas para a população local, mas para o Estado do Piauí e para a Nação Brasileira e, ao mesmo tempo, demonstrar o esforço que temos feito para convencer a todos do quanto é importante a sua restauração”. Lembramos, também, que, na época, ficamos pesarosos pelo fato de não termos recebido uma resposta.
A resposta da Petrobras, seja a esta carta à sua Conselheira Permanente, seja ao ofício enviado, como já relatamos, pelo Senador João Vicente Claudino em 29 daquele mesmo mês de março de 2007, veio agora em forma das claras e objetivas palavras que foram transcritas no início desse artigo.
O dia 15 de julho de 2006, data em que o povo de Campinas do Piauí organizou-se para debelar o fogo que ameaçava se alastrar por todo o prédio e para reafirmar, com um tão carinhoso gesto, sua vontade de ver restaurado o prédio que abrigou a célula-mater do município, deve permanecer na memória dos campinenses como um divisor de águas: a historia da cidade pode, muito bem, ser contada antes ...e Depois Daquele Abraço.
**Nota: Um balanço mais pormenorizado, embora não completo, da Campanha pela restauração da Fábrica de Sonhos´pode ser encontrado no artigo intitulado
“Fábrica de Laticínios dos Campos:110 anos”
*Joca Oeiras é assessor de imprensa da FNT
As fotos de André Pessoa são verdadeiras pinturas
Teve bolo, exibição do documentário sobre a Fábrica produzido pelo IPHAN , discursos e, até, música ao vivo, nas comemorações dos 110 anos de inauguração da Fábrica/150 anos do nascimento do Dr Sampaio
De cima para baixo e da esquerda para a direita: Jurema Machado, Fonseca Neto, Cineas Santos e Sonia Terra, na última fila; Carlos Rubem, Eliane Costa, Marcos Vilhena e Paulo Sá Campos na intermediária e Nazareno Fonteles, Senador João Vicente Claudino e o fotografo André Pessoa na frente