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A vinda do Dr. Edmar de Oliveira a Oeiras, a meu ver, não teve a repercussão que o autor do livro “Ouvindo Vozes” e o livro, em si mesmo, mereciam, e é uma pena – muito mais para nós, do que para ele – que isto tenha ocorrido.
Esta convicção me levou a procurá-lo (virtualmente) para uma entrevista; uma tentativa de minimizar a minha própria frustração. O resultado, acredito, é bastante revelador embora com forte gosto de “Quero Mais”.
Portal do Sertão: No postfácio a “Ouvindo Vozes” você escreveu: Estou há quase dez anos no cargo e passei por várias gestões da política municipal. Com uma equipe acreditando nos sonhos pudemos construir as condições para o fim desse manicômio. Mas sem ajuda não conseguiremos terminar...Na sua “Coluna do Edmar”, mantida no Portal Casa Lima Barreto, em artigo intitulado “A Reforma Psiquiátrica e o Carangueijo”, que, aliás, publicamos abaixo, você nos dá conta de que, você e sua equipe exoneraram-se dos cargos que ocupavam. O que esta atitude sinaliza? O Sonho acabou?
Edmar Oliveira: Porque por “dentro” do manicômio se conseguem as condições para sua superação (tendo-se usado o período assinalado: dez anos não são dez dias). O que foi feito na articulação da montagem de vários serviços “fora”. Aliás, o trabalho acadêmico, que de certa forma dá origem ao livro, chama-se “O Engenho de Dentro do lado de Fora”. Acontece que, para a extinção são necessárias ações de instâncias superiores e de fora. A coragem de prescindir do velho manicômio. Como isso não aconteceu só nos restava desistir. Onde estava, o projeto, não podia continuar. Ou avançava (onde estávamos impedidos) ou recuava (e não queríamos assistir a volta ao passado). Fracassamos, mas a experiência, como documenta o livro, serviu para mostrar a possibilidade da superação do manicômio, um dispositivo anacrônico e que não trata.
Portal do Sertão: Depois de todos esses anos dirigindo o Instituto Nise da Silveira você fala, visivelmente com orgulho, de sua Equipe. Evidentemente esta equipe deve ter sido formada ao longo desses anos. Fale um pouco a respeito desse processo. Como, e até, o que é, afinal, montar uma equipe no serviço público, principalmente em se tratando de algo que busca inovar e não apenas reiterar práticas tradicionalmente consagradas?
Edmar Oliveira: Sou mal humorado, ranheta, autoritário e tenho outros defeitos enquanto gestor. Entretanto ressalto a qualidade de formar equipe. Formar equipe é ter junto ao projeto os melhores (gestores, geralmente, não agem assim. Afastam os que ameaçam seu lugar), apesar de divergência de idéias. Formar equipe é discutir democraticamente em condições de igualdade (tínhamos um conselho diretor deliberativo semanalmente). Uma equipe deve ser uma na diversidade e assim ter autonomia de fazer, desde que os resultados se façam no mesmo sentido. Ela foi mudada várias vezes e o rumo da prosa foi mantido. Não é a toa que quem assumiu no nosso lugar foram desgarrados na construção do projeto. Pessoas que discordavam e não puderam ficar em continuidade, mas que conhecem o projeto e são competentes. Espero que alguma coisa do projeto original possa contaminar a nova direção. Mas os membros importantes da nossa direção romperam com os rumos tomados sabendo perder. O serviço público não tem dono. Tem projetos. O nosso perdeu. Quem ganhou, leva. Teimamos em fazer um projeto avançado em um governo conservador. O risco havia e falo dele no livro, muito antes do rompimento...
Portal do Sertão: A que você atribui o fato de o Museu do inconsciente ser o único no mundo com esta proposta? O que, grosso modo, distingue um trabalho do acervo do Museu do Inconsciente de uma outra obra de arte qualquer?
Edmar Oliveira: Não é Museu do Inconsciente. É Museu de Imagens do Inconsciente. E isso faz uma diferença. São as Imagens do Inconsciente que Nise recolheu ao Museu. E elas não são vistas como obras de arte (apesar do seu valor artístico), mas como um “prontuário” imagético do que o inconsciente nos diz. Portanto elas só têm sentido em sequências, contando a história da vida psíquica de cada paciente. Portanto não pode ser doada ou vendida. São imagens de valor terapêutico, dentro da metodologia sistematizada por Nise da Silveira, a maior psiquiatra do século passado e ainda não reconhecida como devia.
Portal do Sertão: Imagino que escrever “Ouvindo Vozes” tenha sido um belo acerto de contas com o seu passado recente e, mesmo, uma catarse fenomenal. E agora, Edmar, o que vai ser daqui pra frente?
Edmar Oliveira: Não sei. Tenho uma saudade imensa dos meus amigos, pessoas antes mortificadas no hospício. Gostaria de estar junto. Mas ao mesmo tempo um alívio de não responder por questões jurídicas (todo dia era um enfrentamento), questões administrativas sem soluções (não tínhamos mais manutenção, a homogenização ao hospício voltava violentamente, diminuía verbas para roupas, alimentação). Estava ficando um pesadelo sustentar um sonho. Mas, como já disse valeu. O sonho foi enquanto aconteciam as transformações e mostramos ser possível um outro destino. O livro, ainda bem, documenta a existência de um sonho que foi realidade e não se pode negar. Se mudar a política podemos retomar. Mas agora, sinceramente, não sei!
A Reforma Psiquiátrica e o Carangueijo
Edmar Oliveira
Há nove anos, com uma equipe dirigente moldada pelos ideais da Reforma Psiquiátrica, o Instituto Municipal Nise da Silveira vinha desenvolvendo um projeto de desintitucionalização do antigo hospício, herdeiro do Hospício de Pedro II, primeiro manicômio da América Latina. Por essa herança, sabíamos que os acontecimentos ou chamavam atenção para que fosse possível “uma sociedade sem manicômios”, lema da Reforma Psiquiátrica, ou correntes contrárias teriam mais força em impedir o desenvolvimento pleno da proposta.
A proposta em execução previa a saída para a comunidade de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS: dispositivos substitutivos ao velho manicômio), a transferência da emergência psiquiátrica para uma emergência geral e a transformação dos pacientes crônicos do hospital (de 3 a até 40 anos de internação) em cidadãos regulados por um programa de Moradia (baseado na portaria ministerial 106/2001 que cria os Serviços Residenciais Terapêuticos). Essa construção foi executada nesses nove anos de uma mesma gestão, que permanecia enquanto mudavam governos (fato raro no Brasil). Assim se fez o CAPS Clarice Lispector no Encantado, o Torquato Neto no bairro de Maria da Graça e o CAPS infanto-juvenil na Piedade, este último encerrando uma tradição de anos de internações de crianças no Engenho de Dentro. A emergência psiquiátrica especializada foi juntada à emergência geral do PAM Del Castilho, qualificando um atendimento integral de que o paciente tem mente e corpo (na emergência psiquiátrica um paciente gritando com dor no peito nunca é infarto e sim “agitação psico-motora”). Estes resultados foram animadores e possíveis apenas pelo redirecionamento de recursos públicos (pessoal, contratos, orçamento) do hospital para os serviços novos. Apenas um direcionamento e ações de gestão pública, porque sabemos da dificuldade de se obter novos recursos. Mas a intenção de trocar de lugar é possível e cria novos serviços com pedaços do velho e com melhores resultados para a população.
No projeto de Moradias foram tirados das enfermarias todos os pacientes moradores do hospital e oferecidos apartamentos em comunidade e também foram ocupadas as residências e locais que mais se pareciam com casa dentro do campus do Instituto. São 122 moradores, que agora possuem identidade, CPF, quase todos tem bolsa auxilio à desospitalização ou outro beneficio, porque a cidadania exige dinheiro. De vidas soterradas no manicômio voltaram a viver e há histórias emocionantes que se contam. Como a de Valdecir e sua viagem de avião com recursos próprios e a do Seu João Barbeiro, que com o seu auxilio foi aceito por sua pobre família no Vale do Jequitinhonha e já lá mora a mais de dois anos, depois de mais de 30 anos de internação no manicômio.
Mas ou o projeto avança ou recua, não pode ficar no estágio que se encontra. O Hospício tem uma capacidade enorme de regeneração. E há nove meses nesta nova administração da prefeitura, esperamos um avanço na proposta que levou nove anos para ficar pronta. Não houve diálogo. Nosso antigo hospital federal (que foi municipalizado) tinha sua estrutura vertebral nos servidores federais. Desde janeiro a prefeitura resolveu que estes cargos só podem ser ocupados por servidores municipais, o que inviabiliza nossa administração e arranha os princípios do SUS, quando transforma esses servidores em agentes do SUS de segunda categoria. No inicio do ano houve um corte linear de 25 % nos contratos, que já tínhamos enxugado ao máximo na nossa obsessão de gestor público. Um contrato de Vigilância reduzido a três homens à noite para 78.000 m2 de área do antigo complexo hospitalar nos coloca em situação de risco irresponsável. A paralisação do serviço de manutenção hospitalar (que já era precário antes do corte) inviabilizou pequenos reparos com deterioração da estrutura física (há um projeto de reforma do local de leitos hospitalares que foi feito na gestão anterior e esquecido nesses nove meses). A paralisação das duas caldeiras (falta de manutenção) ocasionou demora na confecção de alimentos e interdição da lavanderia. Estes (e teriam outros) são atos que inviabilizam a nossa gestão e por isso pedimos a nossa demissão, apesar do pesar de deixar um projeto que quase ficava pronto e nos foi muito caro.
Nesse vácuo, logo vêm as denúncias e fotos de pacientes descuidados confundindo a falta de condições de trabalho com a clínica prestada aos pacientes. E as corporações se apressam a queixarem-se de falta de pessoal, esse buraco negro na gestão pública. Isso é apenas a ponta do iceberg. O grande problema escondido (muitas vezes já explícito) é um ataque ao SUS, esse ambicioso plano de saúde, que apesar das dificuldades e da falta de recursos, tem o melhor resultado no combate a AIDS no mundo e um Programa de Saúde Mental que vinha se firmando como um dos melhores do planeta (a mudança do financiamento ao Programa no final do ano passado paralisou seu crescimento). Certamente a nossa crise atual tem a ver com isso. Mas somos apenas uma parte do ataque ao SUS. Isso que parece uma crise na Saúde Mental logo vai ser revelada em toda a rede hospitalar se não houver mudanças nas intenções.
E logo agora que o Barack Obama resolve fazer um SUS para os americanos. O Barack sabe o que nossos burocratas ignoram: os planos de saúde só funcionam numa sociedade próxima ao pleno emprego, como era a americana até as últimas crises. Com 18 milhões de desempregados, como agora, haverá um genocídio que o Obama quer evitar na sua cruzada contra os interesses de grupos financeiros. Enquanto os EUA copiam nosso SUS, nós o jogamos na lata do lixo da história e anunciamos uma tragédia. Andamos pra trás feitos caranguejos. A Saúde Mental no Rio de janeiro é apenas o primeiro caranguejo.
 austregésilo Carrano, vitima de internação num Manicomio acabou se tornando um símbolo da luta antimanicomial no Brasil. Faleceu em 2008.
 Hospicio Superlotado
 loucos in concert
 sala de música do hospício
 sala de recreação
 Hospício Pedro II
 Museu das Imagens do Inconsciente

 emygdio museu de imagens do inconciente
 No Museu de Imagens do Inconsciente
 Carl Jung e Nise da Silveira

 Laboratório do Hospicio da Praia Vermelha


 Nise da Silveira, a maior psiquiatra do século passado ainda não foi reconhecida como devia.
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