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27/01/2011 - 00:00
Entrevista com Augusto Rocha

Augusto Rocha, autor do livro “Eu vou no Bombo” é oeirense de nobre estirpe, filho e neto de ex-prefeitos de Oeiras. Aliás, ostenta o mesmo nome de seu avô, Augusto Rocha Neto, em cujo primeiro mandato foi inaugurada a luz elétrica na velhacap (1937). Rochinha, assim carinhosamente chamado, era, também, prefeito por ocasião da chegada (1949) do primeiro bispo de Oeiras, o Bispo-Mártir, Dom Expedito Lopes. Seu pai, Adelino Rocha, foi prefeito entre 1959 e 1962. O seu avô materno, Mário Freitas, também administrou a Primeira Capital (1955/1958).

Todas estas informações, no entanto, não têm o dom de explicar porque este moço tanto preza a aventura e sua atração por percorrer o mundo numa motocicleta. Em seu livro “Eu Vou no Bombo!”, numa linguagem simples, porém, escorreita, ele procura explicar, a nós e, principalmente a si mesmo, esta sua vocação.

Se eu quisesse resumir o conteúdo do livro poderia dizer que se trata de um relato da viagem que ele fez, de moto, com seu amigo Verô, entre Fortaleza (CE) a Ushuaia (na Terra do Fogo, Argentina). Embora sem mentir, no entanto, não estaria dizendo toda a verdade: muito mais que um simples relato, o autor faz pertinentes reflexões sobre a vida que é, por si mesma, uma aventura, e sobre sua atitude ao encará-la.
Procurado, o nosso motonauta, como ele mesmo se intitula, concedeu a reveladora entrevista que segue abaixo:

Portal do Sertão Oeirense da clara e da gema, você revela, em seu livro, uma fervorosa vontade de conhecer, conquistar e torna-se um cidadão do mundo. Mas, já no título, que homenageia um folclórico personagem da Primeira Capital do Piauí, demonstra que, nem por isso, renegou as origens. Como em você se dá a conciliação das aspirações universais com a pátria ancestral?

Augusto Rocha Antes de responder sua pergunta, peço vênia para lembrar dois adágios que minha mãe citava amiúde: “A humanidade é uma só!”e “O menino de oito anos e o velho de oitenta, são a mesma pessoa”.

Sou do tempo em que as crianças brincavam nos quintais. Eu morava na antiga Praça do Perdão; hoje Praça Costa Alvarenga. O quarteirão é imenso, um dos maiores de Oeiras e em quase todas as casas havia quintais. Os muros e as cercas que delimitavam cada um deles, para nós, eram como se não existissem. Adultos não frequentavam quintais e toda aquela área verde era nosso universo particular: o quintal de Mirista, o quintal de Juarez Tapety, o quintal de meu avô Mário Freitas, o quintal do Açougue, o quintal de seu Zé Gomes, o quintal de dona Eva, o quintal de tio Theódolo... No quintal da casa de dona Cotinha (a secular Casa do Visconde da Parnaíba) a gente não gostava de brincar; diziam que lá havia um poço cheio de ossos de escravos. Não fazíamos trâmites aduaneiros nas “fronteiras”, os muros e as cercas não eram páreo para nossas danações. Animava-nos as brincadeiras infindas e a vontade de comer tamarindos, goiabas, seriguelas e outras frutas saborosas.

Para mim a grande diferença entre Oeiras e as outras cidades é que eu nasci lá. A regra é: cada um acha sua cidade a melhor do mundo e comigo não poderia ser de outro modo. Como todo oeirense, tenho uma ligação telúrica muito intensa com a cidade. Entretanto viajar é uma característica inerente ao homem, especialmente viagens de aventura. Todos sonham em fazer uma grande viagem e felizes são aqueles que têm o privilégio de fazer a viagem de seus sonhos.

Acredito que o mundo seja como os quintais que precisam ser explorados e, embora cada um tenha identidade própria, na essência, tudo é muito parecido. Oeiras é tão universal quanto o universo é oeirense e nós, eternos meninos, podemos brincar em qualquer canto.

Portal do Sertão Em sua aventura sempre contou com um companheiro, o também oeirense Everardo Passos Luz, o Verô. Aliás revela em seu  livro que a condição “sine qua non” para que realizasse a viagem era não fazê-la só. A companhia fortaleceu os laços de amizade entre ambos?

Augusto Rocha É comum relatos de viagens que terminam logo no início, em virtude dos problemas de relacionamento entre os participantes. Conheço o Verô desde que era menino, entretanto, não posso afirmar que éramos necessariamente amigos. Em um jantar, Celene e Marcito me lembraram que ele anteriormente viajara de motocicleta até Ushuaia, no extremo sul da América. Liguei para ele em busca de informações e dicas e arranjei um comparte para viajar. Eu nunca fizera nenhuma viagem de motocicleta antes e não conhecia meus limites. Tinha medo de não levar a viagem a termo. Expus minhas limitações físicas e psicológicas ao que ele respondeu: a viagem será fantástica, porém extremamente difícil. Vamos juntos e voltamos juntos, até onde for possível a ambos.

Ainda nos primeiros dias de viagem percebi que escolhera o parceiro certo. Temos, cada um, nossas idiossincrasias, porém com desprendimento, humildade, respeito e boa vontade, percorremos cerca de 22.000 km em 42 dias sem nenhuma discussão ou desentendimento. Lembro bem quando chegamos a Teresina e ele disse que eu tinha sido promovido de amigo a seu irmão, desde então nos reconhecemos como tal.

É mister esclarecer que o verdadeiro motociclista é o Verô; quanto à mim, sou apenas um aventureiro incidental.

Portal do Sertão Em toda a viagem bem sucedida como a sua, há, sempre, imagino eu, dois “tempos” psicologicamente distintos: a ida e a volta. Qual deles lhe pareceu mais longo? Qual foi o mais prazeroso; a chegada em Ushuaia ou o retorno a  Fortaleza?

Augusto Rocha Tivemos o privilégio de fazer duas viagens em uma. Na ida percorremos o leste da Cordilheira dos Andes sempre margeando o Oceano Pacífico, desde o norte do Chile até o extremo sul da América, ora em território Argentino, ora em território Chileno. Retornamos pelo leste, tendo à nossa direita a companhia do Oceano Atlântico. A primeira etapa aconteceu sem nenhuma pressa e parávamos onde bem queríamos. Era final de uma tarde fria quando enfim cruzamos mais uma vez a Cordilheira dos Andes e entramos exultantes em Ushuaia. Havíamos alcançado nosso intento. A volta foi mais intensa, mais rápida. A saudade não permitia contemplações nem descanso. Partir e chegar são sensações diversas, mas ambas misteriosas. A primeira: a dúvida, a insegurança, o desafio; a segunda: a certeza, o aconchego!

Portal do Sertão Aqui em Oeiras, como, em todo o Brasil, a quantidade de motos circulando é diretamente proporcional ao número de acidentes com vítima, muita vezes, fatais, por elas provocados. Você viajou milhares de km em condições nem sempre as mais favoráveis. Seja como for, voltou para casa inteiro. Não vê maior perigo em uma moto?

Augusto Rocha Não faço apologia do uso da motocicleta, apenas sou entusiasta de viagens, seja qual for a modalidade. Concordo com sua preocupação quanto aos níveis alarmantes de acidentes com motos, muitas vezes fatais ou incapacitantes. Não sou especialista em segurança de trânsito, tampouco conheço as estatísticas, porém é fácil inferir, empiricamente, que a motocicleta pode ser um veículo perigoso, se mal utilizado; todavia, acidentes em estradas podem ser fatais, sejam quais forem os veículos envolvidos.

Todos os dias fazemos escolhas. Andar de moto muitas vezes é uma necessidade, em outros, é uma opção; em qualquer caso, o risco é sempre o mesmo. Motos, metralhadoras ou mesmo um simples martelo podem ser muito perigosos, se caem em mãos erradas. O mau uso potencializa o perigo. O equilíbrio precário e falta de uma cápsula protetora certamente expõe um motociclista a maiores riscos, entretanto ficar trancado em casa não livrará ninguém da morte.

Portal do Sertão Uma pergunta necessária: tem planos e/ou disposição para realizar outra dessas aventuras?

Augusto Rocha Essa pergunta é, de fato, inevitável e a resposta objetiva é: não existe nenhum plano elaborado, mas tenho alguns sonhos e muita disposição para torná-los reais.

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