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17/11/2008 - 00:00
Entrevista Especial: Douglas Machado

Queridos amigos:

Publicamos, abaixo,  importante entrevista exclusiva concedida pelo cineasta Douglas Machado  ao poeta e jornalista Stefano Ferreira .


A série de documentários sobre literatura brasileira contemporânea do diretor Douglas Machado, Literatura Brasil, já mostrou de forma profunda e reflexiva a vida e a obra de escritores como H. Dobal, Ariano Suassuna, Marcos Vilaça e Luiz Antonio de Assis Brasil

Os filmes possuem um roteiro que parte da convivência do diretor com esses expoentes da literatura nacional e os mostra de um ângulo diferenciado.

Douglas consegue captar os escritores em sua essência e também relacioná-los
com suas obras. Há um tom universal na forma e no conteúdo dos filmes.

Além da série sobre literatura nacional, Douglas é internacionalmente conhecido pelos filmes Um Corpo Subterrâneo, premiado pelo DOCTV-III: MinC e TV Cultura de SP   e pelo primeiro longa metragem piauiense, Cipriano.

No último sábado, quando Douglas Machado esteve em Oeiras, para gravar imagens do seu próximo documentário sobre O.G. Rêgo de Carvalho, tive a idéia de entrevistá-lo e publicar a entrevista no “Portal do Sertão”. O Douglas, que é um verdadeiro gentlemam,  e respondeu, com presteza, por e-mail, as minhas perguntas, também formuladas via web. Confiram o resultado.
Stefano Ferreira


Portal do Sertão -  Geralmente, os literatos são artistas mais recatados, introspectivos e resistentes à mídia. Fazer uma série onde esses autores se tornam atores principais, exige um certo trabalho de convencimento?

Douglas Machado - Creio que tenhas razão ao dizer que os escritores, em geral, são artistas mais introspectivos e resistentes à mídia. Embora eu não tenha nenhuma experiência de “convencê-los” a participar dos meus documentários. Convencer no sentido de persuadi-los. O que faço sempre é, antes de tudo, ler toda a obra que estiver ao meu alcance do escritor no qual tenho interesse em documentar. Somente após esta leitura me acerco a ele. E sempre vou munido de outros filmes que eu fiz para que o escritor, também, tenha acesso à minha obra. Quando ocorre entre nós um diálogo, em outras palavras, quando o escritor se sente à vontade com o meu estilo narrativo e estético, partimos para o trabalho. Me alegro que, em todos os casos e até o momento, houve também uma cumplicidade entre nós.

Portal do Sertão - Os filmes da série Literatura:Brasil são todos comentados pelo público e pela crítica, alguns veiculados em canais fechados aqui no Brasil, outros em salas e mostras fora do Brasil. Isso se deve ao fato do gênero documentário estar na moda ou se deve ao tema?


Douglas Machado - Talvez o nosso povo esteja mais interessado em conhecer o nosso Brasil. Algo que abraça não apenas os filmes de não-ficção [documentários] como os de ficção. Gostaria muito que isso fosse verdade. Quero acreditar nisso! Por outro lado, não se pode negar que igualmente se deve à qualidade dos produtos audiovisuais mais recentes. Algo que atrai o público. Quanto à nossa Série sobre escritores brasileiros, acredito que o atrativo não se limita à obra do escritor em questão mas também ao fato de apresentar um Brasil contemporâneo. Quero dizer, se você assiste ao documentário sobre o H. Dobal, você vai ter acesso às paisagens do Piauí, ao povo deste Estado; se você assistir ao Suassuna, vai conviver com o Sertão nordestino, com a Paraíba etc.; no caso do Vilaça, é o Pernambuco tão querido por ele; já no gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil, mergulhamos no Pampa, no Rio Grande do Sul, nas raízes açorianas. Acredito que a Série Literatura: Brasil tenha isso: apresentar um painel do nosso país através de seus escritores. E me alegro em dizer que fechamos contrato com a GloboSat para todos os filmes da Série produzidos até o momento. São veiculados em cadeia nacional através do Canal Brasil. O mais recente, “Luiz Antonio de Assis Brasil – O Códice e o Cinzel”, estréia em março de 2009.

Portal do Sertão - Depois de mostrar escritores como Ariano Suassuna, H. Dobal, Marcos Vilaça e Luiz Antonio de Assis Brasil, você traz novamente para as telas um escritor piauiense, dessa vez O.G. Rego de Carvalho. Como se deu a escolha?

Douglas Machado - Antes de tudo, se deve à parceria sempre presente e importantíssima do Instituto Dom Barreto. Este documentário nasceu de um pedido de nosso querido Prof. Marcílio Rangel. Ele sempre foi muito empolgado com a cultura de nosso Estado. A literatura do O. G. Rego sempre foi motivo de entusiasmo para ele. Existe também o fato da importância da obra do O. G. – algo inegável para qualquer estudioso das Letras.

Portal do Sertão - No caso do escritor Ariano Suassuna, seu humor e versatilidade com a oralidade, permitia um diálogo vigoroso durante o documentário. Com H. Dobal, mesmo com a dificuldade da dicção por sofrer de Parkinson, os diálogos foram estabelecidos. Agora, O. G. Rego, sujeito principal do documentário é um escritor completamente introspectivo. Essa condição do escritor ajudou ou atrapalhou no roteiro?

Douglas Machado -  Prefiro não ver as coisas por esta perspectiva. Não creio que atrapalha nem ajuda, simplesmente estamos tratando de um escritor chamado O. G. Rego de Carvalho – com o seu universo humano e as suas circunstâncias. O que quero dizer é o seguinte: não faço média de qual tipo de escritor seria mais fácil ou mais difícil de trabalhar. Penso da seguinte maneira: quero ou não mergulhar neste universo? É óbvio que por vezes não podemos escolher o nosso trabalho, contudo, esta Série tem abraçado todas as minhas decisões. Talvez o particular deste documentário se encontre em dois aspectos: 1. Foi um pedido do professor Marcílio; 2. A família do escritor não autorizou tratarmos das questões relativas à sua saúde. O documentário, portanto, centra unicamente na sua fortuna crítica. Mas garanto que terá a sua beleza. Afinal, a obra do O. G. é de uma qualidade inegável.


Portal do Sertão - Quando está previsto o lançamento do documentário?

Douglas Machado - Desde a entrada do Carlos Rubem Reis como produtor associado, tivemos um impulso considerável. O patrocínio da Prefeitura Municipal de Oeiras, através do Prefeito José Nataniel Lopes Reis e do Governo do Estado do Piauí, através do Governador Wellington Dias e da Presidente da Fundac Sônia Terra fizeram o documentário retomar a sua dinâmica nas gravações. É muito importante citar estes nomes porque não poderíamos estar onde estamos nas gravações sem eles. Agora buscamos finalizar o patrocínio para cobrir os custos de pós-produção. Tudo correndo bem como Carlos Rubem acredita [nunca vi homem tão empolgado com a cultura de sua região!], teremos o patrocínio final ainda este ano. Carlos Rubem está mantendo contato com a Prefeitura de Teresina e a Assembléia Legislativa. Se elas bancarem, poderemos sim garantir o lançamento para o final de janeiro de 2009.

Portal do Sertão - Ainda é difícil fazer cinema no Piauí? Ou nos últimos tempos a produção audiovisual teve mais incentivo no estado?

Douglas Machado - Ainda é difícil. Sempre é difícil. Não apenas no Piauí mas em qualquer recanto de nosso país. Mas como sempre digo: sou um otimista apavorado! Otimista porque eu quero acreditar no ser humano, na sua capacidade de superação face às dificuldades, no “palhaço” e no “rei” que temos dentro de nós, como diz o Mestre Suassuna. E apavorado por conta da imensa exclusão social de nosso país. E os recursos destinados à produção cultural são os primeiros a serem cortados. Claro está que iniciativas como o SIEC ou a Lei A. Tito Filho podem dar um impulso em nosso Piauí. Mas temos que pensar a cultura como algo maior e de extrema importância para a saúde da nossa nação. Veja bem, se meu vizinho está mal, eu também estou mal ou assim ficarei em pouco tempo. Não importa a quantidade de cerca elétrica que eu tenha, ou a altura dos muros ou os cachorros enfurecidos que eu tenha para me proteger. E tampouco adianta apenas dar ao meu vizinho um prato de comida ou ensiná-lo a pescar. É necessário, é indispensável que a educação e a cultura sejam alinhavadas aos projetos de combate à fome e de inclusão social. Comida pode manter um corpo em pé mas não mantém o raciocínio ativo e livre, só a educação e a cultura o faz.

Portal do Sertão - O seu público já pode saber qual escritor será personagem central do seu próximo documentário?

Douglas Machado - Quase que simultaneamente à finalização do O. G. Rego, estamos dando início ao documentário “O Retorno do Filho” [vencedor do DocTV-IV na carteira do Piauí, o que significa DocTV-PI II]. Trata-se de um documentário sobre a relação poética entre o filho Alberto da Costa e Silva e o pai, Da Costa e Silva. Gravaremos no Rio de Janeiro, Teresina e Amarante. Será um documentário onde a poesia reinará absoluto!

Portal do Sertão - As trilhas sonoras de seus documentários, sempre ajudam o público a mergulhar nesses universos literários mostrados, sempre com uma linguagem musical própria. Quais as novidades na trilha desse novo documentário?
 
Douglas Machado - Para a trilha sonora, pedimos, meses atrás, para que o próprio O.G. escolhesse as músicas que mais o agradam. Ele nos apontou várias músicas eruditas [de Bach, Debussy, Beethoven e Bizet]. Munido desse material, irei repassar para o Sérgio Matos, compositor das trilhas de meus filmes, para que ele tenha a liberdade criativa de compor -- se inspirando, claro, neste universo musical do próprio do escritor. Trabalhamos sempre com trilhas sonoras originais.

 Portal do Sertão - Você costuma afirmar que a única preocupação em relação a seus filmes é quanto a exibição, a democratização do acervo. Como será feito a exibição e distribuição desse documentário tão esperado?
 
Douglas Machado - Primeiramente nas escolas, universidades e faculdades. Este documentário precisa ser visto pelos estudantes. Depois, claro, segue o mesmo caminhos dos outros que fazemos: exibições nos espaços voltados a projetos culturais e canais de TV.


Douglas Machado e Gardenia Cury no evento "Armazém de todos os Sertões", ocorrido em junho último no estacionamento do Teresina Shopping.


Douglas Machado nos Açores, onde esteve captando imagens para o Documentário sobre o escritor gaucho Assis Brasil. A colonização açoreana jogou importante papel na formação dos brasileiros do sul do pais (mormemte Santa Catarina e Rio Grande do Sul).. "O Sertão me acompanha", teria dito Douglas. "Na verdade, faz parte de mim!"


Ariano Suassuna e Douglas Machado


Douglas e Assis Brasil


H.Dobal


assis_brasil_3


Marcos Vilaça


Douglas Machado


Stefano Ferreira entre a produtora Gardênia Cury (de costas) e o seu entrevistado, Douglas Machado. Eles, mais OG, Divaneide e o professor Pedro Jr dividiram a mesa da Lanchonete Cordélia, em noite (07/11/2008) que, certamente, ficará gravada na memória de Oeiras.


Douglas Machado [foto Divulgação TrincaFilmes]


Passeando sua imaginação por Oeiras, onde, na realidade, nunca pisou, o caricaturista Netto encontrou o escritor OG Rego de Carvalho, sem a sua amada Divaneide e lendo tranquilamente sentado em um banco na Praça das Vitórias.


Professor Marcilio Rangel in memoriam


Ariano Suassuna

4 comentários
 
Muito bom...Gostei!
Comentado por
Paula Carvalho em 19/11/2008 - 10:40
Parabéns Stefano! Ótima entrevista! Esperemos agora o documentário.
Comentado por
Orlando Berti em 17/11/2008 - 19:51
Nada como esta entrevista para "abrir nosso apetite" ao grande documentário que está por vir. Parabéns, Fanim! Abraço.
Comentado por
Paula Taize em 17/11/2008 - 14:04
Excelente entrevista! Parabéns
Comentado por
Edmo Campos em 17/11/2008 - 10:08
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