O MEU CINEMA PARADISO
Na hora, não acreditei: um convite da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood para assistir à entrega do Oscar! E com direito a toda a mordomia: assento na primeira classe, limusine no aeroporto, hotel cinco estrelas... Faltava tão pouco tempo que nem deu para saborear a expectativa da viagem, o encontro com gente famosa, a esperança de conhecer Fellini. Dias depois desembarcava em Los Angeles: Mr. Caminha, I'm waiting for you, identificava-se a recepcionista à minha espera. Mal entrei no carro, acomodei-me no banco de couro macio, repousei a cabeça no encosto e caí num sono profundo.
Acordei com o solavanco do papa-fila, um velho ônibus com cavalo e reboque, à semelhança das carretas. Chegávamos não ao Dorothy Chandler Pavillion, mas ao Cine Navy, na Base Aérea de Natal, construída pelos americanos durante a Segunda Guerra. Então era aquele o enorme cinema da minha infância? Faltava meia hora para começar a sessão, e lá estava o menino de sete anos a ziguezaguear entre as cadeiras, os pais conversando — tão jovens, ainda! —, os irmãos mais novos repetindo a brincadeira. A música ambiente era a de Irving Berlin, de Henry Mancini, de Rodgers & Hart, e esta é a primeira lembrança que me ficou do cinema: não os filmes em si, mas as canções que ouvíamos antes deles, como a nos preparar para as emoções que viveríamos em um mundo mágico, feito de luz e de som.
Naquele tempo, até as menores salas cumpriam o ritual da projeção: à medida que soavam os toques do gongo, apagavam-se as luzes do recinto e iluminava-se a cortina de vermelho, verde e azul. Só então aparecia a tela, todos já mergulhados no silêncio da escuridão, a caminho de um sonho. De vez em quando, esquecia o jornal e olhava pra cima, admirando o trapézio de luz que se projetava por sobre as cabeças. Aí começava o filme, e nada mais havia além da ilusão, dos homens e das mulheres que se agigantavam à nossa frente, dos enredos que nos faziam esquecer a vida pequena que levávamos. O faroeste era quase obrigatório, e foram tantos que jamais voltaria a vê-lo: John Wayne, Gary Cooper, Jack Palance, Lee Marvin e Robert Taylor decerto ouviam as palmas em que prorrompíamos na iminência da luta, e com eles matamos milhares de peles-vermelhas, trucidamos nações, arrasamos aldeias, cúmplices de um dos maiores genocídios da humanidade. Mais do que todos os bangue-bangues da época, A volta ao mundo em 80 dias é a história que permaneceu, menos pela graça de Cantinflas ou pela atuação de David Niven do que pela música de Victor Young, que nos faria viajar de balão pela vida afora.
Se nos seduzia como arte, o cinema nos atraía como técnica. Vivíamos à procura dos pedaços de filmes que se quebravam: numa pequena caixa de papelão com janelinhas abertas em faces opostas, púnhamos um frasco de vidro incolor cheio de água, por onde olhávamos os fotogramas contra a luz. Sempre imagens desinteressantes — um perfil anônimo, um rosto comum —, nunca os peitos de Sophia Loren ou as pernas de Marilyn Monroe. Mesmo assim, era bom imaginar de que história seriam aquelas personagens, quanto de sofrimento e de amor lhes caberia. Espiávamos aquelas cenas como por um buraco de fechadura, pela porta entrefechada do camarim, antecipando o que depois se veria em público. Uma espécie de voyeurismo — e que são os espectadores senão voyeurs que por estarem juntos se perdoam a fraqueza, desejosos de surpreender os dramas que se fingem nos palcos e nas telas?
Assim descobri o cinema, encanto que virou paixão. Mais tarde conheceria a grandeza de Chaplin, a inquietude de Godard, o vigor de Buñuel, o rigor de Antonioni, a explosão de Gláuber, a profundeza de Bergman, a lucidez de Nélson Pereira dos Santos, o gênio de Fellini, o primor de Nino Rota, a ideologia de Costa-Gavras, a maestria de Orson Welles, o brilho de Woody Allen, a riqueza de Zhang Yimou, a sensibilidade de Tornatore, a sabedoria de Kurosawa, a consciência de Kieslowski, a paixão vermelha de Almodóvar; o charme de Humphrey Bogart, a beleza de Paulette Goddard, o apuro de Jack Nicholson, a graça de Oscarito e Grande Otelo, a sensualidade de Hanna Schygulla, o mistério de Greta Garbo, a perfeição de Anthony Hopkins, a tentação de Michelle Pfeiffer, a comicidade de Peter Sellers, o sex-appeal de Jane Fonda, o requinte de Grace Kelly, a classe de Yves Montand, o fascínio de Juliette Binoche, a excelência de Marcello Mastroianni, o talento de Liv Ulmann, o estilo de Jeremy Irons.
Quando perdeu a liturgia que o solenizava, o cinema ficou mais pobre, menos sedutor. Descontando-se os exageros, naturalmente: no Cine São Luiz, de Fortaleza, um dos mais luxuosos do Brasil, só se admitiam cavalheiros de paletó e gravata... Com o tempo as salas encolheram, hoje não há mais gongo nem vermelho verde azul sobre a cortina. Não há mais cortina: agora a tela se expõe desde o primeiro minuto, como a nos avisar: "Não adianta esconder, é aqui neste pedaço de pano que projetaremos o filme, não haverá ninguém de carne e osso. Cinema é cinema e teatro é teatro." Alguém já observou que a magia da sessão começava com o ritual preparatório: escolher uma roupa, sair de casa, comprar o bilhete... Acomodados na platéia, sentíamos como éramos pequenos naquele espaço, frente à enorme tela que se abria diante das pessoas. Se íamos até ao cinema, nós é que nos púnhamos em função dele, para o gozo de um prazer solidário. O videocassete inverteu tudo isso: com ele, o cinema é que vem a nós, submisso e impotente, para a fruição de um prazer solitário. Antes, contínhamos a não mais poder a vontade de urinar, o ter de levantar-se em meio à sessão, com licença, desculpe, para ir ao banheiro; ficávamos quietinhos, a bexiga prestes a estourar, num sofrimento que muitas vezes dava mais tensão ao enredo. Em casa, ao primeiro sinal de repleção tomamos o controle remoto, damos um clic e congelamos a imagem, dissipando a atmosfera da história, renegando a cumplicidade com o filme. A satisfação imediata do xixi quebrou o encanto do cinema.
Sonhava com isso quando acordei com a televisão fora do ar — não em Los Angeles, mas em Brasília —, a tela chuviscando a me dizer que, como sempre, não agüentara assistir, até ao fim, a entrega do Oscar.
 David Niven (1910-1983)
Jack Palance (1919-2006)
Robert Taylor (1911-1969)
Lee Marvin (1924-1987)
John Waine (1907-1979)
Oscarito (1906-1970)
Grande Otelo (1915-1993)
 Frederico Fellini (1920-1993)
Glauber Rocha (1939-1981)
Akira Kurosawa (1910-1998)
Ingmar Bergman (1918-2007)
Michelângelo Antonioni (1912-2007)
Orson Welles (1915-1985)
Wood Allen (1935- )
 Peter Sellers (1925-1980)
Humphrey Bogard (1899-1957)
Jack Nicholson (1937-.....)
 Sophia Loren (1934- )
Hanna Shygulla (1943- )
Paulette Godard (1910-1990)
Jane Fonda (1937- )
Grace Kelly (1929-1982)
Juliette Binoche (1964- )
 Anthony Hopkins (1937- )
Marcello Mastroianni (1924-1996)
Jeromy Irons (1948- )
 Greta Garbo (1905-1990)
Michelle Pfiefer (1958- )
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