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Stefano Ferreira
 
Stefano Ferreira - 12/01/2010 - 00:00

Tomates Verdes Fritos: uma receita diferente de contar uma história.

Tomates Verdes Fritos: uma receita diferente de contar uma história.

Stefano Ferreira *

Lembro-me muito bem da tarde em que entrei numa locadora localizada na Av. Nossa Senhora de Fátima no final da década de noventa, em busca de algum filme que preenchesse meu fim de semana. Nessa época o Cine Rex já se encontrava em total decadência e só existia na capital, uma saleta para exibições em uma galeria de lojas, ao qual os teresinenses chamavam de shopping, o Baloom Center. (Acho que se escrevia assim).

Ao entrar, escutei a moça do balcão indicar a um cliente que já se encontrava lá dentro um Filme que acabara de chegar, chamado “Tomates Verdes Fritos”. O rapaz pediu a ela que repetisse o título do filme e ela assim o fez.

– Eu mesmo não vou levar pra casa um filme com esse título. Resmungou o rapaz se dirigindo à estante dos filmes de luta.

Aproximei-me do balcão e perguntei à moça do que tratava o filme indicado ao rapaz. E ela me respondeu:

– O filme é um relato de vida. Uma grande história entre duas mulheres. Uma resolve contar tudo no final da vida. Mas tem mistério. Só posso falar isso!

Ainda insisti.

– E o título?

Ela respondeu:

– É o primeiro aperitivo.

Estava decidido a assistir o filme e sabia que com aquele título, o filme deveria ter um tom poético, ou talvez experimental.

Na verdade, o filme é uma narrativa delicada, costurada através de flash-backs. Evelyn Couch (Kathy Bates) é uma dona de casa emocionalmente reprimida, que habitualmente afoga suas mágoas comendo doces. Ed (Gailard Sartain), o marido dela, quase não nota a existência de Evelyn. Toda semana eles vão visitar uma tia em um hospital, mas a parente nunca permite que Evelyn entre no quarto. Uma semana, enquanto ela espera que Ed termine sua visita, Evelyn conhece Ninny Threadgoode (Jessica Tandy), uma debilitada mas gentil senhora de 83 anos, que ama contar histórias. Através das semanas ela faz relatos que estão centrados em uma parenta, Idgie (Mary Stuart Masterson), que desde criança, em 1920, sempre foi muito amiga do irmão, Buddy (Chris O'Donnell). Assim, quando ele morreu atropelado por um trem (o pé ficou preso no trilho), Idgie não conseguia conversar com ninguém, exceto com a garota de Buddy, Ruth Jamison (Mary-Louise Parker). Apesar disto Idgie era bem doce, apesar de nunca levar desaforo para casa. Independente, ela faz seu próprio caminho ao administrar uma lanchonete em Whistle Stop , no Alabama. Elas tinham uma amizade bem sólida, mas Ruth faz a maior besteira da sua vida ao se casar com Frank Bennett (Nick Searcy), um homem estúpido que espanca Ruth, além de ser secretamente membro da Ku Klux Klan. Inicialmente Ruth tentou segurar a situação, mas quando não era mais possível Idgie foi buscá-la, acompanhada por dois empregados. Idgie logo dá a Ruth um emprego em sua lanchonete. Por causa do seu jeito de se sustentar sozinha, enfrentar Frank e servir comida para negros no fundo da lanchonete, Idgie provocou a ira dos cidadãos menos tolerantes de Whistle Stop. Quando Frank desapareceu misteriosamente muitos moradores suspeitaram que Idgie, Ruth e seus amigos poderiam ser os responsáveis. Será que elas cortaram o corpo do Frank e fizeram uma porção de tomates fritos?

A cena inicial do filme, jamais sairá da memória, quando um carro velho é retirado por guindastes de um lago. Na verdade esse fato remete ao desfecho da narrativa, completamente retalhada em flashs. Mistério bem construído. Daqueles que deixa quem está assistindo em dúvida. Envolve e nos transporta ao espaço e ao tempo do filme.

Sem perder o foco histórico, o filme é ora sutil, ora tenso. Deixa uma abertura para a interpretação de um amor homossexual entre as duas personagens. E emociona. Nunca responde, sempre deixa perguntas em quem o assiste.

“Tomates Verdes Fritos” me fez despertar para os relatos de experiências, narrativas pessoais que muito têm a contar. A narrativa é como uma colcha de retalhos que vai sedo tecia e envolvendo o telespectador. O mais curioso é que o filme vem no sentido oposto das histórias cinematográficas que se apropriam de uma temática histórica. O contexto saca a partir das personagens simples retratadas. Não é a Ku Klux Kan o primeiro plano do filme, mas sim um grande amor ameaçado por essa seita de princípios preconceituosos e inconcebíveis ao nosso mundo.

Ao final, fica uma reflexão profunda sobre o preconceito, sobre opções de vida e, sobretudo, sobre o tempo.


da esquerda para a direita e de cima para baixo: Mary-Louise Parker, Mary Stuart Masterson, Kathy Bates e Jessica Tandy.























set de filmagem de Tomates Verdes Fritos








Chris O'Donnell








A primeira Ku Klux Klan na verdade foi fundada por amigos da cidade de Pulaski, Tennessee, em 1865, após o final da Guerra civil americana. Seu objetivo era impedir a integração social dos negros recém-libertados, como por exemplo, adquirir terras, ter direitos concedidos aos outros cidadãos, como votar. O nome, cujo registro mais antigo é de 1867, parece derivar da palavra grega kuklos, que significa "círculo", "anel", e da palavra inglesa clan (clã) escrita com k. Devido aos métodos violentos da KKK, há a hipótese de o nome ter-se inspirado no som feito quando se coloca um rifle pronto para atirar. Em 1872 o grupo foi reconhecido como uma entidade terrorista e foi banida dos Estados Unidos. O segundo grupo que utilizou o mesmo nome foi fundado em 1915 (alguns dizem que foi em função do lançamento do filme O Nascimento de uma Nação, naquele mesmo ano) em Atlanta por William J. Simmons. Este grupo foi criado como uma organização fraternal e lutou pelo domínio dos brancos protestantes sobre os negros, católicos, judeus e asiáticos, assim como outros imigrantes. Este grupo ficou famoso pelos linchamentos e outras atividades violentas contra seus "inimigos". Chegou a ter 4 milhões de membros na década de 1920, incluindo muitos políticos. A popularidade do grupo caiu durante a Grande Depressão e durante a Segunda Guerra Mundial. Decadência A perda de respeitabilidade da Ku Klux Klan, unida a divisões internas, levou à degradação de seu público, apesar de a organização continuar a realizar expedições punitivas, desempenhando, por exemplo, o papel de supervisora de uma agremiação de patrões contra os sindicalistas, cuja cota estava em alta depois da crise de 1929.

1 comentários
 
Olá Stefano!!! Que sencibilidade à sua,comentar este maravilhoso filme.um dos Grandes Classícos do cinema.peço que veja.COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE E O ATUAL GRAN TORINO. VALEU!!!! Beijo!!
Comentado por
Lúcia Vanda Silva em 20/01/2010 - 13:09
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