Iluminuras em papel: miniaturas da poesia de Manoel de Barros
O que são minhas iluminuras? O que elas representam? Como iniciei sua criação? Para mim, elas são rabiscos metafóricos, miniaturas em forma de cartões – povoações advindas da poesia de Manoel de Barros e das iluminuras de sua filha Martha Barros. E, sobre a arte de sua filha, Manoel de Barros elaborou um pensamento que acho ajuda a entender o que são iluminuras. Ele diz:
tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura-objeto que como a música não ilustra coisa alguma, não conta uma história, não conta um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência.
Inspirada nas palavras do poeta, passei a produzir inúmeros cartões com frases de Manoel que passei a doar para amigos próximos e distantes. Tudo começou quando fui convidada para falar da poesia manoelina no Projeto Palco Giratório, do SESI, no teatro 4 de setembro, em 2004. Naquela época, fiz a abertura da peça Um homem de Barros. Essa experiência inesquecível intensificou a minha aproximação com o poeta, e durante a pesquisa tudo o que queria era encontrar palavras que dissessem do encantamento que este ser me traz. Ou seja, o que eu queria era fazer brinquedo com as palavras. Fazer coisas desúteis. Eu queria avançar para o começo. Chegar ao acriançamento das palavras.
E foi assim que Manoel de Barros passou a povoar minha vida e me mostrou que o ofício de poeta é o de escovar as palavras para escutar os primeiros sons, pois para ele as palavras possuem no seu corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Este aforismo revelou-me o mistério que me une ao poeta: em mim, habita o amor que tenho pelas pessoas simples e pelos seres vindos da natureza, e aprendi a amar esses seres com meu pai que ama os passarinhos (ele sabe a hora que eles cantam!), os igarapés, o mar, seus peixes, garças e chão batido.
Deixo agora ao olhar dos leitores e leitoras da FNT meus pequenos desenhos, rabiscos que não pretendem – misturas de giz de cera, pastel, caneta porosa e poesia manoelina, que Joca – esse amigo andarilho – pediu para mostrá-los a vocês. Espero que se encontrem comigo e façam disso inspiração para seus encontros e criações.












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