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Em Oeiras, com Dagoberto de Carvalho Jr!
M. Paulo Nunes*
Não pude estar presente, por motivo superior, a esta nova edição do Festival de Cultura de Oeiras, quando teria a grata oportunidade de encontrar-me com essa figura invulgar de nossas letras, que é Dagoberto Carvalho Jr., e expressar, de minha parte, e de viva voz, naquela terra bendita entre as terras, minha alegria pelo aparecimento da 2ª edição de seu livro admirável, sob todos os aspectos, A Cidadela do Espírito – Considerações sobre a Arte Sacra na Obra de Eça de Queiroz, obra que vem recolhendo os mais altos louvores da crítica especializada daqui e d’além-mar, graças à riqueza do tema e à originalidade do enfoque sobre o autor incomparável d’ Os Maias. Louvores ainda de nossa parte à oportuna iniciativa do Real Hospital Português de Beneficência e da Companhia Editora de Pernambuco que em boa hora se associaram para a publicação de um estudo que já representa na bibliografia queiroziana, como dizem os portugueses, uma das mais significativas contribuições ultimamente aparecidas.
Jean-François Revel, em estudo admirável a respeito de Marcel Proust, Sur Proust, afirma que ninguém é escritor se não possui um tema. Dagoberto estrearia na vida literária com um ensaio historiográfico, História Episcopal do Piauí, por meio do qual viríamos a conhecê-lo. Depois, publicaria o seu Passeio a Oeiras, obra em relação à qual, eu já dissera ombrear-se aos guias históricos de cidades brasileiras, como o Guia de Ouro Preto, de Manuel Bandeira, e os de Olinda e Recife, de Gilberto Freyre, ou o Bahia de Todos os Santos, de Jorge Amado. Depois é que a meu ver encontraria o seu tema, ou a sua mania ou adquiriria a sua “filoxera”, como já o disse na apresentação de seu último livro sobre Eça, Da Janela de Tormes. Assim é que foram surgindo: a própria Cidadela do Espírito (cuja primeira edição é de 1994), Eça e Gilberto na Fundação Joaquim Nabuco (1996), Eça de Queiroz – Retratos de Memória (2001), Revolução pela Palavra (2004) e o já citado Da Janela de Tormes (2006).
Também há a assinalar a sua participação em livros e estudos sobre o mesmo tema, como a colaboração na edição da Obra Completa de Eça de Queiroz, da Editora Nova Aguilar, vol. III, organizada pela competência de Beatriz Berrini, com a Introdução a Uma Campanha Alegre – Rio de Janeiro (2000), no Dicionário de Eça de Queiroz, com verbetes sobre o tema, Editorial Caminho, Lisboa (2000) e no Dicionário Temático da Lusofonia, Texto Editores, Lisboa (2005). Com este livro fascinante realiza Dagoberto um substancioso trabalho de pesquisa sobre assunto até então inédito a respeito de Eça, na literatura de língua portuguesa, porquanto, talvez pela primeira vez, algum estudioso se tenha debruçado com tanto empenho e uma competência das maiores sobre tema dos mais originais na obra queiroziana. Com efeito, alguns já se detiveram na análise do seu estilo ou de sua expressão perfeita, como o já citado Álvaro Lins, ou as turbulências de seu temperamento decorrentes da suposta ilegitimidade de suas origens familiares, como João Gaspar Simões, em sua monumental biografia do criador de A Ilustre Casa de Ramires, ou seu anticlericalismo presente em O Crime do Padre. Amaro, ou ainda o seu lusitanismo crítico e a sua impenitente crítica social. Nenhum, porém se havia preocupado até então com esse aspecto fundamental e, no entanto, jamais referido em sua bibliografia: a arte religiosa de uma obra tão visceralmente irreverente.
Quero, finalmente, significar o quanto fiquei gratificado com a oportunidade da releitura de tão belo estudo do nosso caro Dagoberto e de espiritualmente reencontrar-me com esta figura de intelectual de escol dos que honram nossa terra e dignificam sua gente.
*M.Paulo Nunes é Presidente do Conselho de Cultura do Piauí
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