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Um dia marcante na vida de uma pesquisadora
Na minha pesquisa de doutorado, com o objetivo de vivenciar o cotidiano de jovens de rua em Teresina, resolvi também nomadizar, seguir suas trilhas. E fui sozinha em busca de uma interação maior, de uma intimidade. Adquiro um olhar mais próximo, percebo vontade de potência e de vida entre os jovens de rua e no bueiro onde vivem. O mapa de sensações amplia-se, jovens e pesquisadora confundem-se momentaneamente e, de forma simultânea, exacerbam-se a crueza do trágico e de sua luminosidade, ao se acentuar a intensidade de um tempo presente que se esgota em si mesmo e que acaba encontrando a superação da individualidade e enfatizando a interação entre os diversos domínios da vida social. É o curto-circuito que ressalta a polissemia do real e a riqueza da vida social. A intensidade desse curto-circuito toma parte do meu diário, me sinto como um boto que imerge nas águas profundas onde vivem os jovens e, num salto, saio para respirar, numa mistura de amor e mistério, manifesta-se vida e paixão. Abro meu diário e o deixo falar:
Dia 04 de julho de 1999, domingo – dia intenso em que enfrentei meus medos e produzi conhecimento no meio da rua.
Resolvi ir ter com os meninos. Ir sem o educador. Chego com medo e ansiedade de não ser bem recebida, mas encaro de frente minhas inseguranças. Chego às 16:30h. Encontro todos na marquise da loja, próxima ao bueiro onde se escondem. Uns deitados pelo chão, alguns dormindo. Outros cheirando solvente. Nada mais faziam. E, nessa aparente vacuidade, numa vida banal, eles condensam sentidos. Aproximo-me. Percebem minha presença, que já era conhecida. Gritam: – Shara! Shara! Você trouxe nossas fotografias? Uma constante era essa pergunta. Repetidamente eles a faziam. Olhamos as fotos e conversamos sobre elas. Um deles me pediu dinheiro para comprar comida, pois estavam com fome. Dizem: – nós mesmo cozinhamo (sic) nossa comida, Shara. Ele vai comprar e eu fico imaginando onde cozinhariam. Quando volta, eu peço para conhecer o lugar onde se escondem e fazem sua ‘casa’. Percebo um olhar de recuo num dos jovens, mas os outros se levantam e saem na frente me conduzindo. Até então não me havia aproximado do espaço que, temporariamente, ocupam. Todos os nossos encontros haviam sido debaixo da marquise da loja ou na calçada do posto de gasolina. "Não deu tempo nem pra pensar", estava lá, no meio do matagal, onde havia um bueiro - um esgoto a céu aberto, com lama e dejetos o tempo todo escorrendo. No caminho muitos frascos no chão, jogados ao léu... É a presença dos jovens com seus frascos de solvente. No início, há alguns galhos como se tivessem sido estrategicamente deixados para evitar passagem de estranhos. Entramos e depois de transpostos os galhos, encontramos uma trilha que nos levou até a uma grande árvore. Já eram mais ou menos 17h e o lugar estava meio escuro. Rápido escurece. O lugar é espaçoso. Existem três cadeiras (duas completas e a outra sem uma perna). Resto de papelão no chão para se sentarem ou dormirem e um colchão velho para a mesma finalidade. O resíduo de uma fogueira bem no centro marca a presença de fogo e o lugar de fazer comida... uma panela e uma frigideira. Duas colheres. Pedaços de pano usados. Galhos quebrados... e um fedor enorme de dejetos... acho que do bueiro e dos próprios meninos. Mas, isso parecia passar despercebido para eles... os meninos cheiram seus solventes. Ficam eufóricos, riem alto, cheios de prazer. Excessivamente tudo querem mostrar. Correm de um lado para o outro. É novidade estranhos ali. Não sabem muito bem o que fazer. De repente, um dos jovens sai de dentro dos matos com um pedaço de cana-de-açúcar. Descasca, começa a tirar pedaços e a distribuir. Entrega-me um. Sinto nojo, tudo sujo... Como conseguir comer? Eu como, mas fico com receio de que percebessem meus sentimentos de reação àquele lugar e à sua gente. Na ânsia de agradar, eles reclamam do comportamento uns dos outros: gritam, esmurram-se, xingam-se, enfim, chamam atenção. A minha presença e a máquina fotográfica são motivos suficientes para torná-los mais efusivos. Buscam o melhor lugar para se posicionar. Gritam: – Tira aqui, Shara. Em cima de árvores, bem no alto, fazem pose e berram: – Olha eu aqui. Eu tô aqui. Tira minha foto. Outros pegam meus acessórios: bolsa, óculos escuros e pedem para ser fotografados com eles. Não querem sair de qualquer jeito: descalços ou cheirando solvente. Atentos, sempre preocupados com a melhor imagem, dizem: – Assim não, tia. Descalço, não. Essa eu vou levar pra minha mãe. Depois de algum tempo por ali, eu lembro que é bom colocar o feijão no fogo. Percebo que, de uma maneira ou de outra, uma pequena ordenação se instaura: um dos meninos vai buscar água, outros acendem a fogueira. Falta fósforo e sal, um outro vai comprar. Quando volta, o jovem que saiu para pegar água, traz também arroz e ovos. Diz-me que guardam as coisas no meio das moitas, escondidas. Em minha perplexidade, nem percebo que também estava sendo observada. Um deles olha para mim e diz: – Tia, tu tinha coragem de morar aqui? Tu pensava que alguém vivia assim?A sabedoria, o mistério e a beleza daquele jovem fazem-me calar. Diante de tanta crueza fiquei sem resposta. Tiro fotos até escurecer: da fogueira acesa, da comida fervendo, cozinhando, dos jovens em volta dela, conversando, cheirando... O cotidiano se apresenta ali, bem diante de mim. O inusitado se mostra em um dos seus momentos de epifania. Em pé, sentados no chão, ou mesmo, andando de um lado para outro, ao redor da fogueira, eles cheiram e parecem relaxados... De repente,como quem desperta de uma viagem, olham para mim estranhamente, como a lembrar que eu não era uma de "dentro". Perguntam: – Não está na hora de ir embora, Shara?, Já é tarde, é melhor tu ir se embora. Esses meninos fazem muita bagunça e saliência, não repara, não. A seu modo, me dizem que chegou a hora da despedida. O que iam fazer depois? Provavelmente o que fariam depois, eu, uma "tia" mais velha e que cheirava "a ordem", não saberia e muito menos podia presenciar. Vou embora, olho para trás e vejo um grupo meio embaraçado pela luz da fogueira, vultos... meio "gente de verdade" .
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