Vaqueiro e Visconde: História sim, Literatura também
Resumo
O presente artigo busca mostrar a relação existente entre História e Ficção a partir da leitura da obra “Vaqueiro e Visconde”, de José Expedito Rego. A obra aborda a vida de uma figura muito discutida da história piauiense e que lutou pela causa da emancipação política do estado: Manuel de Sousa Martins, o Visconde da Parnaíba.
Palavras-chave: ficção, história, literatura, poder.
A ficção e a história são formulações da linguagem que apresentam um estreitamento de relações.
Aproximá-las ou distanciá-las depende dos valores dominantes de cada período. Para os teóricos gregos a aproximação se dá, principalmente, pelo caráter discursivo, que é comum tanto à História quanto à Ficção; já o distanciamento se dá pela noção de verdade tal como ela é vivenciada pela sociedade da época.
Para Aristóteles (Teorias do Romance, 1996, p. 15): a literatura não tem compromisso com a verdade, mas com o arranjo convincente de seus elementos. Ela precisa parecer e não ser verdadeira.
A História caracteriza-se pelo comprometimento com a veracidade dos fatos, uma vez que é um testemunho da sociedade, refere-se a uma trama, complexa e efetiva de acontecimentos. Já a Literatura ocupa-se da representação da realidade, buscando preservar e difundir conceitos universais.
As relações entre História e Literatura podem ser evidenciadas a partir de três focos analíticos:
1. Colocando-se em destaque o produto ficcional, abordando-o como repertório, como um indicativo das virtualidades da História, como um registro de alternativas históricas colocadas a determinada sociedade, em determinados períodos.
2. A História levaria em consideração as articulações entre as vidas dos autores e todo o universo social.
3. A compreensão de que o produto ficcional é dotado de sentido a partir da situação social do produtor.
Para o historiador, pensar História e Literatura só possui significação quando se percebe que a História ou o contexto é maior que o produto-objeto, que o produtor-sujeito e que tanto o produto quanto o produtor são modelados pelo social.
A Literatura se relaciona de diversas formas com a História. Os escritores aproveitam o acontecimento histórico para representar uma realidade, retratando uma época e uma sociedade. A matéria histórica é um importante recurso da imaginação criadora, na literatura universal de todos os tempos, uma vez que a História sempre foi uma fonte de inspiração para os romancistas. Guerras, movimentos grevistas, tragédias, revoluções, política fornecem um vasto material aos escritores de diferentes épocas.
No Piauí não é diferente. Vários escritores buscam na História recursos para escreverem os seus romances.
O oeirense José Expedito de Carvalho Rêgo soube retratar perfeitamente fatos históricos em sua obra “Vaqueiro e Visconde”. Trata de uma biografia romanceada de Manuel de Sousa Martins, o Visconde da Parnaíba. A primeira edição do romance data de 1981 com o título “Né de Sousa”, nome pelo qual o Visconde era conhecido na intimidade. Em 1986 foi publicada a segunda edição com o título “Vaqueiro e Visconde”.
O romance cobre um vasto período de tempo, desde o nascimento do herói, em 1767 até a mudança da capital de Oeiras para Teresina, quando ele já se encontrava velho e em declínio.
Para uma melhor compreensão da obra, faz-se necessário que o leitor tenha alguma noção da História do Piauí.
Né Martins, pai de Né de Sousa, era pobre, mas portador de muita saúde e disposição para o trabalho. Ao se casar com Donana Rodrigues, recebeu como presente de casamento do seu sogro a fazenda Serra Vermelha, onde moravam quando nasceu Né de Sousa, primeiro filho do casal.
Né de Sousa, como era conhecido na redondeza, teve uma instrução que se resumia em aprender a ler e a contar, iniciando-se na língua latina com um tio afim – o Sargento-Mor Marcos Francisco de Araújo Costa.
Órfão de pai, teve que fazer-se homem prematuramente. Antes dos dezesseis anos já era o braço direito da mãe viúva. Auxiliava nos trabalhos da fazenda e na educação dos irmãos mais novos. Ingressou na carreira militar, o que representava a possibilidade de ascensão social e aquisição de títulos. Durante sua adolescência e mocidade trabalhava com afinco no intuito de aumentar o patrimônio da família, que fora herdado do pai e da avó e madrinha.
Casou, na flor da idade com sua prima Josefa Maria dos santos, com quem teve três filhos. Aos setenta e sete anos, contraiu segundas núpcias, a pedido do seu filho João, com a viúva Maria Benedita Dantas. Desse segundo casamento não teve filhos.
Homem muito sensual, mesmo nos primeiros anos de casamento Josefa não lhe satisfazia mais completamente e, após o terceiro parto, tornou-se inútil para o amor.
Obrigado a encontrar uma saída para as suas necessidades sexuais, envolve-se com Sebastiana, conhecida carinhosamente como Tiana, uma mulata bem clara, filha do vaqueiro de uma de suas fazendas, a quem amou muito, quiçá até mais que sua esposa, que tinha uma saúde debilitada.
Quando Tiana faleceu, repentinamente, sentiu-se mais viúvo do que se tivesse perdido a esposa legítima, que passou a cuidar das filhas da amante do marido.
Deixou numerosos bastardos, a quem amparou e educou com desvelo.
Manuel de Sousa Martins, homem de grande influência, prestou relevantes serviços à causa da emancipação política do Piauí, governando-o, depois por largos anos. Recebeu prêmios honoríficos como a Comenda da Ordem de Cristo, o Oficialato, Dignatário do Cruzeiro, o foro de Fidalgo Cavaleiro da Casa Imperial, o título de Barão da Parnaíba e por fim o de Visconde.
A partir da derrota na eleição de 7 de abril de 1822 começou a desarmonia entre Manuel de Sousa Martins e o governo, o que o levou a abraçar a causa do partido separatista e a trabalhar pela realização da Independência.
Sousa Martins é a figura mais discutida da história piauiense. À frente do Governo Provisório, tomou medidas acertadas e trabalhou com afinco, dirigindo a luta em toda a Província. Passou quase vinte anos no governo, desde a independência, em 1823, até 1843, na qualidade de presidente, o que garantiu ao Piauí a estabilidade social exigida pelo momento nacional.
Fiel aos princípios e ditames de sua fé: a ordem e a disciplina, governou a província com pulso seguro e firme:
Estava caduco, podia morrer. Cumprira a missão. Os filhos criados dele não precisavam, nem Oeiras, a capital ia mudar para a Vila Nova do Poti. Os velhos fantasmas de Serra Vermelha brincavam na mente do velho visconde. (pág. 239)
Cometeu erros e tinha conhecimento dos mesmos porém esses erros eram frutos da malquerença e de paixão, foram antes do sistema de governo que do governante. Foi um instrumento do regime nascente, personalista e arbitrário de Pedro I.
A 24 de janeiro de 1823, Manuel de Sousa Martins aclamou D. Pedro Imperador do Brasil, com a adesão de todo o povo ao novo regime. Foi em Oeiras que se deu a Independência, estabelecendo-se novo Governo e destituindo-se as autoridades portuguesas.
O Visconde nunca esqueceu sua origem humilde. Foi um presidente que boa convivência. Inspirava respeito, foi temido. Recebia a todos com afabilidade, na simplicidade de seus trajes caseiros. Muitas vezes, seu despotismo serviu para abrandar as calamidades públicas.
Né de Sousa aparece na obra “Vaqueiro e Visconde” como um ser humano, com suas amantes e filhos bastardos, cercado por figuras adejam sempre ao lado dos poderosos. É um romance sócio-político. Em todas as atividades e movimentos dos quais participou (Guerra pela Independência, Batalha do Jenipapo, Revolução dos Balaios, Rebelião de Pinto madeira) assumia compromisso de fidelidade para com os fatos e a história do Estado.
Conseguira tudo o que um homem poderia conquistar em uma cidade como Oeiras: poder, riqueza, prestígio, admiração de amigos, amor das mulheres e ódio dos inimigos. Teve a lealdade incondicional de muitos, foi bajulado por outros, desprezou o rancor dos invejosos. Dedicou-se acima de tudo à família e aos amigos. A morte levara as odiosidades, afastara os seres de sua maior estima, mas o desgosto maior de sua vida era a desunião da família, principalmente com seu irmão Joaquim Martins de Sousa.
Depois de exonerado da política, da administração, do prestígio, do sexo, aos oitenta anos, Né de Sousa assistia à decadência de Oeiras e na sua mente brincavam os fantasmas de sua meninice e de sua adolescência na Serra Vermelha:
Oeiras entrava em agonia, em decadência, se não viesse a desaparecer por completo. Ouvia-se falar em cidades extintas. Talvez se preservasse Oeiras, quando menos como cidade-relíquia. Oeiras era a própria história do Piauí. E Né de Sousa participava dessa história. Seu nome estaria ligado para sempre ás lutas da Independência e da Balaiada. Se Oeiras morrer, o Piauí perderá grande parte de sua vida. (pág. 239)
Vale ressaltar que, além do caráter histórico-instrucional, encontramos na obra vários aspectos relevantes a todo grande romance, como: o choque de ambições, a análise profunda da natureza humana, a revelação de ideologias, cenas idílico-amorosas, o amor na extensão dos desejos, tramas, conspirações, deslealdades, traições, ou seja, tudo que torna a leitura agradável e envolvente, integram o vasto universo de uma narrativa ficcional, mas com a presença de uma realidade humana e social exposta com segurança e equilíbrio.
A quase totalidade das personagens é real: Né Miranda é Manuel Inácio de Miranda Osório, figura muito conhecida no cenário político da Oeiras antiga; Padre marcos, Padre Pinto do Lago, o médico José Luiz de quem fala Gardner em seu livro “Viagens pelo interior do Brasil” são reais e familiares do autor de “Vaqueiro e Visconde”.
Apesar de o livro basear-se na História, apresenta partes de pura ficção. Lacunas da História foram preenchidas com a imaginação.
Todos os que conhecem a história do Visconde da Parnaíba sabem que ele teve amantes e filhos bastardos, mas ninguém conhece o nome das amantes. José Expedito criou então Tiana e Miquelina, amantes de Manuel de Sousa Martins. A obra apresenta também outros personagens de ficção: Zé Rolinha, apesar de fictício é perfeitamente verossímil; Dr. Pedroso, personagem inventado, que representa a oposição da classe média ao governo do famoso Né de Sousa.
José Expedito Rego diz que o Visconde da Parnaíba:
Foi um grande homem, com defeitos e qualidades inerentes a todo ser humano e que foi sobretudo um produto da época em que viveu.
Com uma linguagem leve, apurada, acessível, com o uso de frases e expressões comuns ao seu tempo, o autor de “Vaqueiro e Visconde” expôs as virtudes e defeitos próprios do ser humano comum, descrevendo o visconde à imagem e semelhança dos homens simples e corajosos que construíram a história do Piauí.
José Expedito, um dos maiores romancistas da cidade de Oeiras soube com perfeição abordar temas dentro da obra, tudo dentro de um único contexto, onde o personagem protagonista, Manuel de Sousa Martins, se apresenta de forma sutil e ao mesmo tempo marcante, num cenário bastante diversificado.
Bibliografia
Freitas, Esmaragdo de.
O Visconde da Parnaíba. Edição do Instituto Histórico de Oeiras: Oeiras-PI, 1982.
Freitas, Maria Teresa de. Literatura e História: o
Romance Revolucionário de André Malraux. 1ª ed. Série Lendo. Atual Editora: São Paulo, 1986.
Medeiros, João Bosco.
Redação Científica: A prática de fichamentos, resumos, resenhas. 7ª ed. Editora Atlas S.A.: São Paulo, 2005.
Rêgo, José Expedito.
Vaqueiro e Visconde. 3ª ed. Teresina-PI.
*Tereza Cristina de Araújo Sousa é professora