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Paulo José Cunha
 
Paulo José Cunha - 24/05/2010 - 00:00

O ladrão sem remorsos

Quando saí apressado de Teresina pra vir morar em Brasília, consegui roubar algumas poucas coisas que escondi nos bolsos. E fugi, com olhos assustados, mas na certeza de que havia roubado o essencial para sobreviver longe da cidadezinha que a distância ia empurrando pra trás, lá onde mora o passado, envolta na saudade do tempo em que um menino brincava pelas suas ruas, andava de bicicleta molhando as pernas nas poças d’água, empinava papagaios que sumiam no céu, desenhava corações nos troncos das árvores, ou gastava o tempo com os olhos postos no rio, acompanhando a navegação das canoas e dos vapores, onde viajavam, solenes e em silêncio, homens de chapéus de palha e mulheres de sombrinhas estampadas.

A primeira coisa que escondi bem escondida foi uma praça velha, cheia de árvores centenárias, onde até hoje os namorados marcam encontros, e os meninos atiram pedras nos passarinhos, e as meninas colhem flores, e os velhos descansam nos bancos, à sombra fresca do dia. Pois roubei esta praça, a velha Praça Saraiva, lá onde fica o colégio dos padres, colégio Diocesano, de tantas lembranças, tantas traquinagens, tantas alegrias. Na dúvida, roubei também o colégio, com todos os padres dentro e mais a quadra de futebol de salão e o pé de sapoti. Só não roubei o boletim com as notas vermelhas. Não sei por que, mas esqueci dele...

No mesmo bolso ainda couberam as ruas perdidas da infância, com suas mangueiras, seus cajueiros, e os pregões dos vendedores – êêê, carvoeeeeeiro!, do botador de água, do leiteiro e da velha das vassouras de palha de babaçu.

Aproveitei e guardei no mesmo bolso outra praça querida: a Praça Pedro II, onde um adolescente assustado deu o primeiro beijo na primeira namorada, ao som da banda da Polícia Militar, que tocava no coreto em frente. Roubei também o coreto, os músicos e aquela touceira de dálias que havia em frente ao lago de cisnes de cimento.

Na correria da fuga, deixei caírem alguns bilhetes de namoro; um ingresso para a sessão das 3h15, no Cine Rex; umas revistas de Tarzan e três figurinhas raríssimas do álbum dos heróis da Copa de 58 (Vavá, Garrincha e um negrinho incrível, que parecia ter futuro, e atendia pelo apelido de Pelé).

No outro bolso, guardei a casa, a casa aquela da praça, atrás da Catedral de N. S. das Dores, onde o menino dormia e acordava às badaladas do sino do velho relógio, e brincava no quintal debaixo de um pé de siriguela, entre patos, galinhas e marrecas. Na dúvida, peguei tudo – casa, igreja, badaladas, marrecas e o cheiro de infância que exalavam.

Depois de olhar para um lado e para o outro pra ver se não havia ninguém, roubei a velha ponte metálica que une Teresina a Timon, no Maranhão. Ainda coube no bolso um papagaio sura, o Mercado Velho, seis bolas de gude olho-de-boi e a sobra da manga verde que estava comendo com sal, escondido da mãe e das tias, quando decidi empreender a fuga.

Foi assim, com os bolsos recheados desses tesouros, que desembarquei um dia em Brasília, onde guardei cada um deles nos retratos que hoje se espalham pelas paredes do coração. Agora, meus tesouros estão protegidos pelas retas e curvas de uma outra cidade, feita de vidro e ferro, erguida por um bando de loucos desvairados, na solidão agreste do cerrado goiano, de onde um dia, quando vier a se tornar poeira de estrelas, um menino fugirá levando nos bolsos alguns palácios e monumentos, umas esplanadas, uns ministérios, a universidade inventada por Darcy, uma torre de televisão e um céu enorme, lindo e terrivelmente azul.    


Praça Saraiva


Marco zero


seleção 1958


copa58


volta olímpica


tarzan


catedral de The


Theatro 4 de Setembro


Ponte Metálica


Siriguela


Praça Pedro II


Cine Rex

2 comentários
 
Um dia, a filha de Otto Lara Resende disse: "Pai, deixa de ser reminiscente!". O velho Otto deve ter sorrido e mostrado nas bochechas umas palavras da língua portuguesa que só ele sabia onde buscar. Não sou doido de dizer ao Paulo José Cunha o que a filha de Otto disse ao pai. Porque também sofro desse mal, sem o qual a crônica não existe (ia arriscando dizer: sem o que a literatura não existe, mas ainda penso que tenho um pouco de juízo). Também confesso: sou ladrão. Um dia saí de Oeiras com os bolsos recheados. Mas o Paulo José Cunha é mais: um larápio de marca maior. Roubou o tema primeiro que todo mundo. Ladrão federal, pode até levar monumentos e palácios e ministérios. Afinal, um menino pode tudo. Um cronista pode tanto quanto ele.
Comentado por
rogério newton em 25/05/2010 - 09:31
Eu sou suspeita para falar sobre o cronista PJC. Leio um, leio todos os seus textos. E sobre este do ladrão, que tentação. Deu vontade de fazer um igualzinho ou tão bom quanto a respeito da minha amada São Paulo. É PJC instigando os colegas. Viva esse eterno menino, por todo o sempre... e bjs pra ele!
Comentado por
Kênia Nicácio em 31/05/2010 - 17:00
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