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Dr. Isaías Coelho, o herói do sertão
Dr. Isaías Coelho, o herói do sertão
Um dos maiores médicos do seu tempo e de todos os tempos vive na memória de seus conterrâneos 50 anos depois de seu falecimento.
Zózimo Tavares (*)
Ele era um filósofo, um profeta ou um santo? Era isso e muito mais, o dr. Isaías Coelho. Durante quase meio século foi o maior nome da medicina do sertão do Piauí. Homem simples, bom e caridoso, tornou-se ídolo de seu povo. Hoje, 50 anos depois de seu falecimento, ele continua vivo na saudade de seus contemporâneos e na memória dos filhos de Simplício Mendes e dos municípios da região.
O Dr. Isaías Coelho morreu na noite de 21 de janeiro de 1960, em Teresina, depois de sofrer um infarto em Simplício Mendes, sua terra natal. Ele foi transportado para a capital em avião fretado, na manhã do mesmo dia. Morreu no Hospital Getúlio Vargas, onde seu coração, cansado de luta, parou de vez, após quase 50 anos ininterruptos e intensivos de medicina, profissão a que se entregou como a um sacerdócio.
Seu corpo foi trasladado no dia seguinte para Simplício Mendes, onde foi sepultado sob forte comoção popular. Daí se seguiram as homenagens póstumas dos filhos da terra ao seu conterrâneo mais ilustre. Em 1962, inaugura-se na terrra-berço o Ginásio Isaías Coelho e, em 1963, cria-se o município de Isaías Coelho, com sede no povoado Tamboril, desmembrado de Simplício Mendes e instalado no ano seguinte.
Outras homenagens se seguiram: em 9 de julho de 1964, inaugura-se a praça Isaías Coelho, a principal de Simplício Mendes, com uma estátua do homenageado. Em 1990, na passagem do centenário do seu nascimento, as Prefeituras de Isaías Coelho e de Simplício Mendes e o Instituto Histórico de Oeiras publicam o livro “Isaías Coelho – o centenário de um mestre” e, em 2006, o engenheiro José Mendes de Sousa Moura publica o livro “Isaías Coelho – o Esculápio do Sertão”, com apoio da Universidade Federal do Piauí e da Academia de Medicina do Piauí.
Hoje, Simplício Mendes volta a reverenciar a memória do Dr. Isaías Coelho. A passagem do cinquentenário de sua morte será lembrada nesta data com missa campal, sessão na Câmara e outros eventos programados pelo prefeito José Lopes e o deputado estadual Ubiraci Carvalho para homenagear a memória do médico, orgulho maior da cidade.
Ciência, intuição e bondade salvam vidas
Se os recursos colocados à disposição da medicina no interior ainda hoje são escassos, imagine o quadro entre 1914 e 1960, período em que o Dr. Isaías Coelho clinicou no sertão do Piauí. Mas, apesar disso, pela experiência pessoal, a ciência, a inteligência e a forte intuição, ele diagnosticava, ali, casos que eram confirmados por exame de laboratório em São Paulo, como os da terrível Doença de Chagas, Calazar e leishmaniose visceral. Além de confirmado o diagnóstico no centro da medicina mais avançada do país, era continuada a terapêutica por ele instituída.
Para Simplício Mendes acorriam pessoas de lugares os mais diversos, ansiosas por ouvir a palavra do grande médico que fazia curas verdadeiramente impressionantes para a época. No seu consultório atendia indistintamente a ricos e pobres. Destes nada cobrava e, às vezes, fornecia remédios e alimentação, além de hospedagem em sua própria casa.
No depoimento que deu para o livro “Isaías Coelho – o esculápio do sertão”, o presidente da Academia de Medicina do Piauí, Luiz Ayrton Santos Júnior, escreve que “Isaías Coelho foi um médico diferente, que marcou um tempo, com uma vida que se desenvolveu num “universo” infinito, rompendo as barreiras do tempo e do espaço, se é que eles existem”.
O dr. Luiz Ayrton especula como seria o atendimento praticado pelo médico naqueles recuados anos, no sertão do Piauí:
– “É fácil imaginar o Dr. Isaías Coelho chegando tarde da noite numa fazenda, quando todos os bichos barulhentos já dormiam, cansado de mais algumas léguas montado num jumento, roupas sujas, um arranhão na perna por uma “unha-de-gato” que se aproximou demais de sua caravana, batendo à porta da fazenda e um velho aos gritos dizendo: “acorda, Maria, estamos a receber o Dr. Isaías. Prepara um café e forra a melhor de nossas camas...” Hospedar um homem desses não era só uma oportunidade de consulta mas uma hora das mais nobnres. As portas sempre se abriam para esse médico que, na manhã seguinte, poderíamos ter certeza, seria acordado por uma leva de meninos mal-nutridos e suas mães com as roupas mais bem lavadas que podiam, iniciando-se uma manhã de boas energias, risos tímidos e satisfação à flor da pele”.
O médico e escritor Dagoberto Carvalho Júnior, então presidente do Instituto Histórico de Oeiras, escreveu no centenário do colega:
–“De doutor Isaías falo com o respeito que a infância alicerçou. Cresci vendo-o ministrar as mais honestas e práticas lições de medicina no “modesto consultório do sertão” que sua sapiente bondade transformara em verdadeiro centro de “romaria”. Havia qualquer coisa de místico na crença com que o procuravam pacientes dos mais diversos e distantes lugares. Só que no seu caso, o mito jamais suplantou o homem de ciência. Nele ele, em nenhum momento, fez-se ou deixou-se confundir. Foi um apóstolo da ciência na mais verdadeira acepção do termo. Viveu e praticou a medicina como idealizada por Hipócrates, fazendo do seu exercício o mais abnegado e sublime sacerdócio”.
Um médico que fez milagres
Um contemporâneo do Dr. Isaías Coelho, Sílvio Mendes de Oliveira, pai do prefeito de Teresina, escreveu em seu livro de memórias, “Revivendo meus caminhos e outras notas”, publicado em 2002:
–“O dr. Isaías fazia operações no próprio consultório, fazendo-se às vezes de enfermeiro, aplicando injeções, cuidando dos curativos e acompanhando a evolução da cura. realizou verdadeiros milagres, curando doentes que vinham à sua procura, muitos deles até desenganados por colegas médicos de outras regiões.
Foi um médico, sobretudo, humano, Muitas e tantas vezes dava a receita, os remédios e uma ajuda financeira ao cliente para a viagem de volta. Sua conta na farmácia atingia mensalmente somas elevadas. Possuía algumas casas denominadas “rancharias” destinadas a abrigar os enfermos pobres e seus acompanhantes vindo de outras regiões. Providenciava o abastecimento dessas rancharias com lenha, água, querosese para lamparinas e, não raro, víveres para aqueles mais pobres”.
O casamento com a medicina
O Dr. Isaías Coelho viveu como um celibatário. O seu casamento, com a filha de um rico fazendeiro da região, foi desfeito na última hora. Em seu livro com a biografia do médico, o engenheiro José Mendes conta como foi o episódio:
–“O casamento do ano ou, quiçá, no século estava prestes a acontecer na pequena Simplício Mendes. O noivo, o melhor partido e o filho mais famoso da cidade, Dr. Isaías Coelho. A noiva, filha de Antônio Mendes de Carvalho, o fazendeiro mais rico do município. O imprevisível, porém, aconteceu. Certa vez, o Dr. Isaías foi à fazenda do futuro sogro passar o final de semana com a noiva. Mal sentou, chegou um portador com um chamado urgente para o médico ir à cidade atender a uma senhora em trabalho de parto, sofrendo dificuldades e complicações. Era caso de vida ou morte a parteira não sabia mais o que fazer.
Dr. Isaías não se fez de rogado: mandou o empregado voltar imediatamente para pegar o animal. Houve uma certa incompreensão da noiva, que não o queria atendendo ao chamado, ocorrendo ali uma discussão. O médico retornou para a cidade, chegando a tempo de fazer o parto, salvando a mãe e o bebê.
Conta-se que o Dr. Isaías enviou depois uma carta ao ex-futuro sogro, na qual lhe comunicava o fim do noivado e lhe pedia a conta das despesas já realizadas com o enxoval e com os preparativos do casamento, para fins de ressarcimento. Não houve cobrança das despesas, mas por algum tempo houve certo desconforto na convivência das duas famílias.
Algum tempo depois, a ex-noiva casou-se com outro. No seu primeiro parto foi socorrida pelo Dr. Isaías Coelho, chamado às pressas por um amigo comum. Com a missão cumprida, saiu sem cumprimentar ninguém, como procedera ao chegar. Solicitado a apresentar a conta, nada cobrou”.
Um breve perfil biográfico
Isaías Rodrigues Coelho nasceu no dia 20 de outubro de 1890, no povoado Lagoas, então município de Oeiras, depois incorporado ao de Simplício Mendes. Fez os cursos ginasial e superior na Bahia, de 1904 a 1913. Formou-se em Medicina em 27 de dezembro de 1913.
Apesar dos apelos para continuar na metrópole, onde se destacara como aluno da tradicional Faculdade de Medicina da Bahia, voltou, no ano seguinte, para sua pequena e pobre Simplício Mendes. E lá ficou para o resto da vida, depois de montar seu consultório. Só se ausentou da cidade para atender pacientes em outros municípios do Piauí ou em visitas periódicas que fazia a Salvador, então centro da cultura médica dos mais adiantados do país.
Sua fama de médico correu o Piauí, a Bahia e Pernambuco. Quando de suas passagens por Petrolina, com destino a Salvador, tinha que demorar-se dias seguidos, para atender os muitos pacientes que, tomando conhecimento, com antecedência, através de informações de pessoas amigas, da realização da viagem, aguardavam-no e, esperançosos, recorriam ao médico piauiense, em quem tanto confiavam.
Na política local, era uma espécie de fiel de balança: ganhava sempre aquele que contava com o seu apoio. Nunca aceitou qualquer cargo público. Se quisesse, teria sido prefeito de Simplício Mendes toda vez que se candidatasse.
De casa a dentro
Ao discursar por ocasião das homenagens prestadas ao Dr. Isaías Coelho no quadragésimo aniversário de sua formatura, José Atanásio descreve a casa do médico, na rua 15 de Novembro (atual Nivardo Rodrigues), no centro de Simplício Mendes, onde funcionava também o seu consultório:
–“Em casa, onde vamos encontrá-lo algumas vezes em meio à balbúrdia dos que frequentemente lhe enchem – pessoas que o procuram, amigos que o visitam, doentes a exigir receita, mendigos a pedir esmola, parentes que ele hospeda e crianças que ele adora, lá está o homem, afável e risonho algumas vezes, seco e reservado algumas outras, atencioso em qualquer dos casos. E entremos ainda, os mais íntimos, até mais adiante, ao quarto de dormir, que é também o seu quarto de leitura. Tudo ali em desalinho: revistas pelo chão juncando o piso; jornais, também pelo chão, ou sobre a cama, amarrotados, desdobrados, acenando em bandeira; pontas do lençol escapando da rede, balançando ao vento; livros, alguns em pilhas dsesmantelados sobre a mesa, outros abandonados a esmo, fora de lugar, sobre malas ou por detrás destas, pensos, semiabertos como a nos oferecer a leitura – tudo aquilo em tal desordem, em tamanha desarrumação, que o dono do quarto, homem limpo e educado, vexa-se naturalmente, desconcerta-se tantas vezes à entrada ali de visitas menos íntimas que o procuram. Pois aquela desarrumação, aqueles livros em desmantelo, aqueles jornais em bandeira, aq uelas revistas abertas, emborcadas, atrabalhando a passagem, está tudo paradoxalmente bem arrumado na sua cabeça, muito bem distribuído e guardado no seu cérebro. Aquilo é o resíduo, o bagaço imprestável, que outros, ante a necessidade de reler, guardam zelosamente, e de que ele já não carece e se pode atirar fora, porque o suco, a seriva, a substância, essa, seja uma fórmula científica, uma verdade filosófica, um episódio político ou um gracejo de almanaque, ficou para sempre muito bem arrumado lá dentro na sua cabeça, muito bem guardado na maravilhosa retentiva da sua memória e melhor assimilado pela robustez da inteligência, concorrendo ou tornando-se tudo aquilo elementos constitutivos da cultura, do saber, da graça, da pujança, enfim de sua personalide”.
Um retrato em bronze e verso
O médico e escritor oeirense José Expedito Rego, que lhe devotava amizade, escreveu um soneto em sua homenagem, na inauguração da praça Isaías Coelho, em 20 de junho de 1964:
Esse que vês, em bronze esculturado,
na praça principal desta cidade,
de ledas, vivas flores rodeado
qual sombra triste em meio à claridade;
Trazendo no semblante fatigado
fundas rugas de dor e de ansiedade
e, no comprido lábio desolado,
um travo de desgosto e soledade;
Não foi poeta, nem se fez famoso
na política, nem também se diga
que nasceu nobre, que foi poderoso!
Está todo o seu mérito no amor
com que se deu a sua gente amiga,
na luta ingente de sanar a dor!...
Entusiasmo e devoção
Há dez anos, a convite do então secretário de Educação, professor Ubiraci Carvalho, conheci Simplício Mendes, para onde viajei em companhia do então presidente da Fundação Municipal de Saúde, médico Sílvio Mendes, e do humorista João Cláudio. Fomos participar de solenidades da Secretaria de Educação presididas pelo governador Mão Santa.
Ficamos hospedados, Sílvio, João Cláudio e eu, na casa do dr. Salomão Cronemberger Filho, cirurgião-dentista, no centro da cidade. Bem em frente havia, no centro da praça, uma estátua. O que inicialmente nos chamava a atenção – minha e de João Cláudio – não era propriamente a estátua, mas o zelo com que era cuidada, em meio a um florido jardim.
Nos aproximamos para melhor contemplação daquele bronze que imortalizava um homem, de corpo inteiro, bem trajado, segurando em uma das mãos uma maleta. Lia-se no centro do pedestal: “Ao Dr. Isaías, esta terra, agradecida”. Eu perguntei: “Dr. Isaías?”. “É! Dr. Isaías Coelho!”, respondeu alguém. Eu não sabia quem era Isaías Coelho. Seu nome não me era de todo estranho porque sabia que existia, ali perto, uma cidade com esse nome. Cuidava, porém, que fosse uma homenagem a algum político da região.
Mais tarde, em visita à casa da mãe do professor Ubiraci Carvalho, dona Graziela Carvalho, nas imediações da praça, lá estava a foto do Dr. Isaías Coelho. Mais adiante, fomos visitar uma tia de Sílvio Mendes, dona Salete Cronemberger, e lá observei a mesma foto, também em lugar de destaque. Pedimos informações sobre o Dr. Isaías Coelho.
Os contemporâneos falam dele com entusiasmo e devoção. A dona da casa nos contou, rapidamente, a sua história e foi buscar nos seus guardados um texto escrito pelo médico. Era o discurso com que agradeceu a homenagem que a cidade lhe prestou na passagem de seus 40 anos de formatura.
Naquela ocasião, em 27 de dezembro de 1953, houve uma festa pública que jamais foi esquecida pela população local. Com a cópia do discurso do Dr. Isaías Coelho em mãos, João Cláudio passou a lê-lo em voz alta. Trata-se de uma peça literária que bem dá a dimensão intelectual e humana de seu autor.
João Cláudio lia o texto como se já o conhecesse. Lia não, interpretava-o. E não demorou para que começasse a chorar de tanta emoção. Uma emoção que contagiou aos que ouviam a leitura. Entre lágrimas, ele foi até o fim do discurso, que acaba assim:
“Não vos agradecerei: - na minha sensibilidade, no teclado da minha sentimentalidade, esgotado de tantas emoções, já não há uma nota à altura da minha gratidão, muito menos à altura da vossa bondade, conterrâneos e amigos! Apenas digo: - o céu vos pague a esmola da vossa bondade. E pague como mereceis: - a juro de mil por um, que é como o céu paga a quem dá aos pobres, aos velhos, aos cansados...”
E viva o Dr. Isaías!
(*) Editor-chefe do Diário do Povo – reportagem publicada em 21.01.2010
 Estátua do Dr. Isaías Coelho, encravada na praça de igual nome, Em Simplício Mendes
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.jpg) Residência-consultório do Dr. Isaías Coelho, em Simplício Mendes
.jpg) Túmulo do Dr. Isaías Coleho, em Simplício Mendes
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