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O Fantástico e Ilusório Sumiço de um Compositor
Por Stefano Ferreira
Em 1995 o ator inglês Stephen Fry sumiu. Ele atuava na peça Cell Mates, de Simon Gray - que conta a história de George Blake, um espião condenado a 42 anos de prisão por trabalhar para os russos - quando, após ler uma crítica negativa no jornal Financial Times, sendo vítima do distúrbio bipolar, sofreu uma crise depressiva e resolveu não mais participar da peça. O sumiço foi noticiado em jornais, os amigos lançaram campanhas para achá-lo, mas o ator simplesmente largou tudo e sumiu.
Aqui no Brasil o episódio tornou-se popular quando o compositor e cantor maranhense Zeca Baleiro, escreveu a música Stephen Fry, presente no seu primeiro disco “Por onde andará stephen Fry?”.
Lembrei do episódio do ator inglês semana passada, quando, instigada pelo “Fantástico”, programa da Rede Globo, a mídia brasileira discutiu, debochou e especulou o sumiço do compositor e cantor Belchior.
O artista foi um dos grandes ícones da música brasileira na década de oitenta e teve seus sucessos gravados por grandes nomes daMPB.
A polêmica gerada em várias mídias sobre o desaparecimento do cantor, fez-me refletir sobre a postura comercial da mídia brasileira e seu foco, num país onde a identidade cultural não tem espaço nos veículos.
Há anos, a mídia brasileira não falava em Belchior, não usava suas canções como trilha, não mostrava seus novos trabalhos, nem mesmo, relembrava antigos sucessos e sua importância para a música popular brasileira no passado.
Os programas de música veiculados preferem esquecer compositores arrojados em detrimento de produtos descartáveis que massificam e vendem.
Agora, movida pelo desejo de transformar o sumiço do cantor em algo curioso, obscuro, inclusive expondo sua vida financeira, a mídia lembrou-se de sua importância, sua obra e seu estilo inconfundível.
Decidi escrever este texto, logo após assistir a matéria que desvendou o paradeiro do compositor. A jornalista Sônia Bridi o encontrou na pequena cidade de San Gregório de Polanco, no Uruguai.
Elegantemente, o compositor concedeu uma entrevista e, mesmo não sendo grosseiro, deixou escapar, nas entrelinhas, uma crítica à mídia, à invasão de privacidade que os veículos fazem a fim de tornar o cotidiano ou os problemas de figuras públicas em novelas da vida real ou em grandes campanhas promocionais. E se recusou a responder algumas das perguntas por ela formuladas.
Finalizou dizendo que não está sumido, mas sim recluso e que, em breve. lançará um trabalho novo, fruto dessa fase.
Agora eu pergunto: Será que quando for lançar esse novo trabalho, será convidado para algum programa global?
Belchior tem um trabalho aplaudido pela critica, por músicos, produtores e também pelo grande público. Sua obra nunca sumiu. Mas a mídia brasileira não se interessa por ela, mas sim, pela possibilidade de torná-lo um personagem de uma pauta que dê audiência de um domingo a outro.
*Stefano Ferreira é Jornalista, Professor e Poeta
 Belchior e as várias caras de Drumond
Poemas de Carlos Drummond de Andrade musicados por Belchior:
CD 1:
1-Sentimental
2-Lagoa
3-Concerto
4-Cota zero
5-Liquidação
6-Perguntas em forma de cavalo-marinho
7-Quando desejos outros é que falam
8-Toada de amor
9-Lanterna Mágica
10-Orion
11-Poema que aconteceu
12-Também já fui brasileiro
13-O passarinho dela
14-Ar
15-Política literária
16-Poesia
CD 2:
1-A música barata
2-Arte poética
3-Os inocentes do Leblon
4-Quero me casar
5-Cidadezinha qualquer
6-Cantiguinha
7-Boca
8-Ainda que mal
9-Procuro uma alegria
10-Serenata
11-Nova canção do exílio
12-Sweet home
13-Rosa rosae
14-Mosaico de Manoel Bandeira
15-No banco de jardim
 Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil em julho de 1987, um Carlos Drummond de Andrade abatido e desesperançoso declarou acreditar que seria esquecido tão logo nos deixasse. Dezessete dias depois ele nos deixou. Mas, ao que tudo indica, não foi esquecido. No ano em que Drummond completaria 101 anos, a Editora Caras, em parceria com o cantor e compositor Belchior, prova que a amarga profecia de sua última entrevista estava totalmente equivocada. O fruto dessa parceria está materializado neste "As várias caras de Drummond". Uma edição especial formada por um livro e dois CDs. No livro, 31 retratos e 31 poemas de Drummond dividem harmoniosamente as páginas. Nos CDs, os poemas se tornam música pelas mãos talentosas de Belchior. Aliás, canções e retratos são do cantor e compositor cearense. À maneira prosaica do maior poeta brasileiro do século XX e, para muitos, de todos os tempos, o número 31 refere-se singelamente ao dia do seu aniversário: 31 de outubro. Com "As várias caras de Drummond", Caras traz para sua festa de 10 anos um nome que simboliza o que há de melhor na cultura brasileira. Aliás, um não, dois nomes: o de Belchior também, aquele que concebeu artisticamente esta obra fantástica que você tem agora em suas mãos.


 Como Nossos Pais
Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
Das coisas que aprendi
Nos discos...
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...
Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...
Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...
Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...
Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...
Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...
Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...
Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal...
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo,
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...
 Elis Regina foi a grande intérprete de várias composições de Belchior, inclusive "como nossos pais"
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