Editorial
  Nogueira Tapety
  A Fundação
  A Cidade
  Oeirensidade
  Projetos
  Participe
  Loja Virtual
  Notícias
  Artigos
  Painel Científico
  Cenas Sertanejas
  Reportagens Especiais
  Entrevistas
  Nós e Elis
  Ensaios Fotográficos
  Memória de Oeiras
  Fábrica de Sonhos
  Blog da Campanha "Uma medalha para Possidônio"
  Nogueira Tapety: Diário da Madeira
  100 anos sem Euclides
  Blog Eu e Outras de mim
  Blog La raspa del tacho
  Blog do Stefano
  Prosautoral
  Blog da fa do Joao Claudio
  BLog Flor de Passo
  Blog Mosaico da Vila
  Blog Farinhada
  Mural da Vila
  Kenard Kaverna
  Links
  Fale Conosco
 
Pádua Ramos
 
Pádua Ramos - 13/03/2009 - 00:00

Dividir o Piauí seria enfraquecê-lo

“Se um reino se divide contra si mesmo ele não poderá manter-se.  
Se uma Família se divide contra si mesma não poderá manter-se.”
Mc 3, 24-25

“Dividir a pobreza é faltar com a inteligência.”
Roberto Pio Napoleão, administrador


Estudos realizados pelo Governo Federal no passado identificaram os denominados “eixos nacionais de integração e desenvolvimento”: eixos indicativos de potencialidades econômicas insinuadas por características geográficas; potencialidades econômicas conversíveis em empreendimentos privados auto-sustentados, geradores de emprego, renda e tributo, – com o apoio infra-estrutural e institucional do poder público.  Adiante, quando se tratar dos eixos especificamente estaduais piauienses, o entendimento do que significam ficará mais claro. Essa nova forma de abordagem da questão do desenvolvimento, a dos eixos, relega a segundo plano as fronteiras políticas. No caso de que se vai tratar, relega a segundo plano as fronteiras políticas sub-regionais e mesmo municipais. E faz, quase sempre, desencontrados delas, os limites dos espaços geoeconômicos, cujos desenhos quase nunca coincidem com os perfis das unidades políticas (Estado ou Sub-região ou Município), ainda que, freqüentemente, tenham sido definidos sob a influência dos acidentes geográficos.

Eixos Estaduais

O raciocínio estratégico do Governo Federal, na época, determinante da subordinação – à localização nos eixos – de investimentos públicos em apoio ao sistema produtivo, bem que poderia ser repetido pelo Estado do Piauí, ao identificar a existência, também na escala estadual, dos “eixos estaduais de integração e desenvolvimento”. Menciona-se, a título de provocação, que poderiam ser citados, como possíveis eixos estaduais:  as bacias dos rios Parnaíba, Gurguéia, Canindé e outros;  os platôs de Guadalupe;  os tabuleiros litorâneos;  as áreas sob influência das lagoas e dos açudes;  os eixos turísticos;  os cerrados com sua magnífica produção de grãos;  e o semi-árido, surpreendentemente rico de recursos naturais que só ali – literalmente, só ali – são gerados.



A Versatilidade Ecológica do Piauí

A versatilidade ecológica do Piauí, como se sabe, constitui-se em base de potencial econômico polivalente. Tal versatilidade nasceu sobretudo das amplas latitudes, em que a carta geográfica piauiense se desdobra, e um tanto das suas longitudes.  Como sabemos, o Estado confina ao Norte com o Oceano Atlântico e prolonga-se em diferentes latitudes até alcançar o sopé do Planalto Central;  convive pelas longitudes do Leste com a Serra Grande e com o Semi-Árido e, pelas longitudes do Oeste, com a Pré-Amazônia.  A polivalência ecológica do Piauí aponta para o cultivo de grãos, em geral, e da soja, em particular, bem como para o plantio da cana-de-açúcar.  Se tais culturas se constituíam já em oportunidades econômicas, de uma hora para outra essas oportunidades econômicas foram alavancadas pela descoberta de caminhos alternativos para a obtenção do biodiesel, do h-bio e do metanol.  A polivalência ecológica do Piauí aponta ainda para a cajucultura, a mandiocultura, a cotonicultura, a cultura do girassol, a mamonocultura, a fruticultura irrigada, e a própria cultura da carnaúba e do babaçu em bases renovadas; para o cultivo adaptado da videira;  para a ovino-caprinocultura, a apicultura, a psicultura, a carcinocultura, a aqüicultura amplamente.  E assim por diante.  Curiosamente, em geral as oportunidades podem estar vocacionadas preponderantemente para uma sub-região, mas não unicamente para ela.

A diversidade dos turismos – o naturista e o científico, principalmente mas não exclusivamente – compreende, pelo menos, o Norte Litorâneo, que encontra no Delta do Rio Parnaíba sua máxima expressão;  o Norte Intra-Continental, com o Parque Nacional de Sete Cidades, a Serra de Pedro II, o Açude Caldeirão e a Cachoeira do Urubu;  bem como o Sudeste, com o Parque Nacional da Serra da Capivara, na qual se encontram os sítios arqueológicos, ora custodiados pelo Museu do Homem Americano.  E, mais adiante, a vetusta – e mágica – Cidade de Oeiras.  Sem esquecer as paisagens deslumbrantes do sul, onde se pode apontar, por exemplo, a Lagoa de Parnaguá.

O potencial mineralógico carece de estudos mais aprofundados, sem prejuízo da constatação já agora da existência de jazida de níquel a ser explorada pela Companhia Vale do Rio Doce.  Esses estudos poderão, quiçá, levar à detecção de um ou mais eixos de integração e desenvolvimento.  As seguintes pistas, conforme relação não exaustiva, ilustram a amplitude do tema:  água mineral, ardósia, argila de queima vermelha, argila de queima branca, calcário, granito ornamental, mármore, opala, sal-gema, vermiculita, atapulgita, ilmenita, monazita, zircônio, rutilo e o já citado níquel.

Enfim, essa espantosa versatilidade ecológica do Estado faz a diferença.  E o maior trunfo de que o Piauí dispõe para libertar-se do estigma de ser um dos últimos, no ranking dos Estados brasileiros – quanto ao indicador síntese renda per capita – é essa versatilidade espantosa.  Essa notável versatilidade.  Essa versatilidade quase única.  No Nordeste, única.


A divisão empobreceria a diferença

De modo que as tentativas que ocorrem, de quando em quando, de divisão do Piauí em dois, se vingarem, destruirão a diferença.  E a diferença, ela própria é que é o nosso tesouro.  Se é verdade, como verdade é, que nosso incomensurável tesouro é essa incrível diversidade interna, que nos torna comparativamente tão distintos, certo é que nossa desgraça será o equívoco com que alguns desprezam este nosso tesouro.  

Tome-se um exemplo singelo, como recurso de exposição.  Dividir essa rica versatilidade do Piauí de hoje seria como dividir entre duas vitrines o sortimento variado de uma só vitrine.  Cada nova vitrine exporia variedade menos rica de artigos.  

As tentativas divisionistas ou são fruto da ingenuidade de uns, ou o são da malícia de outros.  Os primeiros movem-se pelo propósito generoso de atrair mais assistência para o sul do Estado;  e os segundos – embora engajados, acreditemos, na mesma bandeira generosa – são motivados também pelo desejo de poder, representado pela perspectiva de administrarem os novos empregos que seriam gerados;  e representado pela perspectiva de captura da parcela do Fundo de Participação e das demais transferências federais, bem como dos tributos estaduais, que seriam usufruídos  pelo novo Estado, isto é, pelo meio-Estado, – sob o pressuposto ilusório de que administrariam esses recursos com mais, digamos assim, produtividade social. Como se a velha natureza humana dos governantes novos fosse menos imperfeita que a velha natureza humana dos velhos governantes.  Como se a fronteira política que fosse criada tivesse o poder mágico de deixar do lado de lá os pecadores;  e do lado de cá, os santos.

Sobre a racionalidade da administração financeira

Ninguém se surpreenda se, caso eventualmente a idéia da partilha se fizer vitoriosa, os dinheiros públicos vierem a ser gastos prioritariamente com as construções dos três palácios – dos três palácios clássicos:  o do Poder Executivo, o da Assembléia Legislativa e o do Tribunal de Justiça.  Aos quais se acrescentaria sem falta um estádio de futebol.  E as escolas?  E os hospitais, as maternidades, os postos de saúde, os ambulatórios?  E as centrais de abastecimento?  E os aeroportos?  E as estações rodoviárias?  E as estradas municipais?  Oxalá estes registros não tenham valor de premonição.

A falácia da facilitação administrativa

Não vale o argumento antigo da facilitação da ação administrativa, requerida pela imensa área do Piauí. (De fato, a área do Piauí é quase igual à soma das áreas do Ceará, do Rio Grande do Norte e da Paraíba). Esse argumento ficou caduco, frente às modernas técnicas de administração, apoiadas pela Informática.  A tecnologia da informação faz “milagres”.  Só um exemplo.  Em livro intitulado O Mundo é Plano, da autoria de Thomas Friedman, cita-se, entre outras experiências da reviravolta que o mundo está vivenciando, que no ano de 2004 cerca de 100 mil declarações de Imposto de Renda de americanos - americanos residentes em seu país – foram feitas fora dele:  na Índia.  (O Mundo é Plano – Objetiva – 2005, p. 22).  Alguém de dentro do Governo do Estado e com familiaridade com o assunto poderá oferecer com certeza exemplo mais próximo, exemplo nosso, exemplo piauiense, a respeito da transmissão intra-governo, em tempo real, de dados sobre atos e fatos administrativos ocorrentes nos mais distantes pontos do território piauiense, nas áreas de segurança, fazendária, educacional, de saúde etc.

A corrente de pensamento pró-divisão, por mais bem intencionada que seja – como é o caso, com absoluta certeza, de um de seus líderes, a saber, o honrado homem público que é o Sr. Jesualdo Cavalcanti Barros – opta sem o perceber pelo retrocesso histórico, representado pela segmentação que só fragiliza, justo num momento em que a moderna tendência universal aponta para o vigor da soma, da aglomeração, da consolidação, fundadas solidamente sobre o suporte racional dos mercados comuns.

Não.  Não tornemos ainda mais fraco, economicamente e politicamente, o Piauí, bipartindo sua geoeconomia e, ainda, dicotomizando sua pequena representação congressual. Se esse desastre viesse a acontecer (confirmem ou não os entendidos em legislação eleitoral): cada banda de Piauí contaria com 8 deputados federais cada:  a do Piauí do norte e a do Piauí do Sul. Daí resultando dois sub-Piauís. Ora, se já hoje o total de 10 deputados federais não têm força para quase nada – não por serem quem são, mas por serem quantos são –, imagine 8 deputados.

O mesmo raciocínio provavelmente não se aplica às bancadas estaduais em suas relações com o poder central piauiense, de tão fácil acesso.  Não se venha, pois, com o argumento de que as administrações estaduais só consideram os problemas do sul piauiense em raras oportunidades.  Se a afirmação tiver procedência, ou os representantes políticos do sul não usaram de sua justa influência ou não se apresentaram com suficiente empenho em favor dos legítimos interesses de seus representados frente ao Governo Estadual.  Se esta fosse a postura habitual dos homens públicos do sul piauiense, como acreditar que de repente fossem mudar?  Que de repente passariam a ter influência ou a se apresentar com suficiente empenho perante o Governo Federal?

O Piauí é um tesouro

Aquele tesouro antes mencionado, que são justamente nossos traços diferenciadores, teria seu valor diminuído, porque seria partido em dois pedaços.  E o número já agora pequeno de nossos deputados federais se transformaria, como visto, em número diminuto.  Nenhum dos dois Piauís seria forte, pois teriam enfraquecido o poder da pressão política. A capacidade de transação se esmaeceria. Ambos sairiam enfraquecidos.  Antes, portanto, cuidemos de nossos eixos:  eles são transcendentes, no sentido de que cada um abrange, quase sempre, simultaneamente, municípios distanciados entre si. Por via dos eixos, haverá um entrelaçamento natural do sul, do centro e do norte. Por via dos eixos, seriam firmadas alianças duradouras entre comunidades geoecono-micamente afins: alianças duradouras sustentadas por superiores interesses comuns. É preciso institucionalizar programaticamente o entrelaçamento ora apenas natural dos eixos e, conseqüentemente, promover a integração das múltiplas sub-regiões.  
Daí resultando a tessitura inconsútil de um só Piauí, uno e forte.



*Padua Ramos é professor titular da cadeira de Planejamento Social da UECE - Universidade Estadual do Ceará;  e pró-reitor da mesma universidade para a área de planejamento. É autor do livro Em Busca do Ângulo Alfa, sobre políticas públicas


Vista do Parque Nacional das Sete Cidades situado no município de Piracuruca


Poços Jorrantes em Cristino Castro


É deslumbrante a visão do Canyon do Rio Poti em Castelo do Piauí.


Ainda o Belíssimo Canyon do Rio Poti


Vista aérea do Delta do Parnaíba


Intenso lazer no Açude Caldeirão em Piripiri-PI, um dos mais belos do Estado.


Cartaz busca conscientizar a população de Cajueiro da Praia quanto a importância da preservação do Peixe Boi Marinho, mamífero aquático ameaçado de extinção que habita o litoral do município, situado no mais extremo norte do Piauí.


Floresta Fóssil , com troncos datados de 25 milhoes de anos à magens do Rio Poti em Teresina, a 500 mts do Teresina Shopping.


serra da capivara


Por do Sol em Oeiras (foto Joca Oeiras)


Cachoeira do Urubu


Ferrovia Transnordestina: "Partindo-se de Eliseu Martins para o Norte, ao atingir o paralelo 8º, e ao ultrapassá-lo, vê-se que aumenta o número de municípios e se adensam, comparativamente, os ecúmenos setentrionais, até alcançar o Porto de Luís Correia – a 612 km de distância, em linha reta. Mas a ferrovia não vai para dentro, isto é, para o Norte. Vai para fora, isto é, para o Leste: para Pernambuco e para o Ceará. Estima-se preliminarmente que essa área, alheia aos benefícios da ferrovia, compreenda cerca de 70% do território piauiense; em termos populacionais esse percentual há de ser muito maior, admita-se algo da ordem de 85%: eis que no espaço dito desgarrado estão localizados os municípios mais habitados, do que se constitui em exemplo culminante a Capital." Pádua Ramos


Coluna vertebral imaginária mostra o sentido que devem ter os investimentos de impacto no Piauí. Note-se que as cidades mais ricas do Estado – Floriano, Picos e Piripiri – assim o são por serem entroncamento para outros Estados e seu crescimento não tem relação necessária com os interesses econômicos propriamente estaduais.


A bacia do Parnaiba confirma a vocação econômica do eixoo Norte -Sul no Piauí


o Piauí e as rotas comerciais


Mapa detalhe


Carnaúbas às margens da Lagoa do Fidalgo (foto Lúcia Vanda).


Sobrado Major Selemérico em Oeiras (foto Lais Reis)


Serra das Confusões (foto André Pessoa)


babaçual (foto sem crédito)


Opala, a grande riqueza da região de Pedro II-PI


Morro do Gritador PedroII


Mel do Piauí


castanha caju e cajuina


Conjunto musical "Bandolins de Oeiras" no Programa do Jô Da esquerda para a Direita: Nieta Maranhaão, Rosário Lemos, Zezé Cabeceiras e Petronilha Amorim (junho/2008). Foto Carlos Rubem.


Congos de Oeiras -São João no Nordeste da Rede Globo ( Foto Lúcia Vanda)


Com carinho maternal ela alimenta o bebê peixe boi que se perdeu de sua mãe nas águas mornas de Cajueiro da Praia, um dos habitats naturais do Peixe-Boi Marinho.

0 comentários
 
Comente esta matéria:
Nome:
E-mail:
Comentário:
 
  Visual CAPTCHA
Código de validação
 Ver Todos
A divisão pretendida quebra a “coluna vertebral” do Estado do Piauí
 
À sombra do Imbuzeiro
Aldo Votto
Amada de Cássia Campos Reis
Amigos da Rita Campos
André Gonçalves
André Pessoa
Andréa Dutra
Benedito Amônico
Benjamim Santos
Café com Beiju
Carlos Dimas
Carlos Hermes
Carlos Rubem
Cássia Neiva
Celeia Machado
Chico Castro
Cineas Santos
Dagoberto Carvalho Jr
Dom Carlito
Dona Amália Campos
Edmar de Oliveira
Edmilson Caminha
Elmar Carvalho
Emanuel Vital de Sousa
Especial
Especial: No Global Rock Art
Euridice Sousa
Ferrer Freitas
Firmino Libório
Fonseca Neto
Francisca das Chagas
Gutemberg Cavalcante
Joca Oeiras
Josevita Tapety
Júnior Vianna
Kais Ismail
M. Paulo Nunes
Marc Theophile Jacob
Maria Cristina Araújo de Sousa
Maria Helena
Memória de Oeiras
Menezes y Morais
Miridan Britto
Moisés Reis
Pádua Ramos
Paulo José Cunha
Paulo Machado
Paulo Moura
Pedro Junior
Que estória é essa?
Renato Bandeira
Rogério Newton
Rosamélia Lopes Portela
Rosilândia Melo
Sania Mary
Shara Jane Costa Adad
Socorro Barros
Stefano Ferreira
Stultifera Navis
Tacilda Aquino