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O sertão de Nogueira Tapety
O sertão de Nogueira Tapety
*Por Fonseca Neto
Sob os auspícios e vibrações da Festa do Divino deste ano, Oeiras abriu ao mundo uma página para cultivar, na plena acepção do termo, os sentidos da vida e da obra do poeta Nogueira Tapety, um dos mais notáveis filhos da terra, entre tantos outros que tem.
Criada uma Fundação, um Memorial, um Sítio na rede mundial. E claro, página, e páginas, já se está escrevendo neles. Benedito Francisco Nogueira Tapety é o centro quase mítico dessa irradiação. Aliás, sua vida plena de intelecção, mas abreviada na idade das flores vigorosas, confere significado algo singular à obra poética lampejada. E não é por outro motivo que Zózimo Tavares o incluiu em sua imaginária –e absurdamente veraz– “Sociedade dos Poetas Trágicos”.
Nogueira Tapety nasceu sob os sóis oeiranos em 1890, quase 91. Aos vinte anos estava completando o bacharelado em Direito, em Recife, destino de algumas dezenas de filhos dos sertões de dentro do Piauí; filhos da gleba latifúndia, diga-se. A musa mortífera comedora de pulmões declamadores o arrebataria antes de chegar aos trinta.
Vida curta, logo se constata. E parte dela impactada pela dor das horas certas do fim –explodindo em arte e tormento. Na Oeiras natal; na Madeira, ilha e ares de vida pura; um tempinho na Lisboa camoniana; e de novo e sempre na Oeiras primeira, e invicta, para os últimos cantos: a poética romântica tapetina reponta e ressoa os sertões suspirantes de antigas mochas e tranqueiras.
Tem todo sentido a idealização da Fundação Nogueira Tapety ganhar concretude com o erguimento do Memorial do Sertão, que deverá ter como cabeça a casa de fazenda Canela, onde nasceu e morreu o poeta –casa de fazenda que a Oeiras expandida por becos e ruas encurvados alcançou em seu crescimento urbano. Será um centro de referência sobre a vida sertaneja nesta nesga do piauiês, foco de elaboração de uma atitude mais inclinada ao fortalecimento e refazimento de laços do povo com o lugar.
Desde muito cedo os litorais das feitorias lançaram sobre o Pindorama profundo seu olhar de cobiça. Cobiça que tornar-se-ia devassamento, devastação, demonização, enfim. Nossos sertões são filhos desse movimento que vai dialetizando a construção da vida no interior, espécie de franja da dominação lusitana, onde, aliás, o Império, arrogante e duro, mitiga e parece ter esmaecido seu furor.
A Oeiras-berço do poeta Tapety á um bastião avançado que o Império português finca para ordenar as rebentações espertas do colonizador sem limites e enquadrar conflitos que explodem nesse lugar em que chega rarefeita a sombra do rei (obrigado padre Vieira!). Oeiras, edificada sobre o lajeiro morno do Mocha, é cabeça de um sertão que sintetiza culturas que se cruzam. O poeta aos sete anos viu sua Oeiras fazer dois séculos desde a ata dos “brejeiros crentes” fundadores da igreja original. E sua alma sertaneja deve fazer ensaios palpitantes.
O Memorial do Sertão, na casa oeirense do poeta, e o Sítio internético, timbrando o poética nogueirana nos sinais eletrônicos do orbe terreal, e daqui a pouco, pelas vias lácteas, são desses feitos cujo sabor é de completa vitória. Vitória! Que requer apoio, contudo. Mas que já deu certo.
“E a jitirana em flor faz de cada tapera / Uma alcova nupcial perfumada e macia...”.
E agora a jitirana quaresmeira e roxa da romântica Oeiras, lançará sua ramaria sobre todas as Marias, de todas as paixões, das taperas de/florantes de todas as aldeias.
“Do côncavo do céu ao côncavo dos ninhos...”. Aos céus onde está o poeta –sim, um cientista acaba de anunciar a Internet nas estrelas em quatro anos...
*Fonseca Neto é historiador e diretor do Centro de Ciências Humanas da UFPI
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