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Lagoa do Portinho: santuário em perigo
*Benjamim Santos
A beleza da Lagoa do Portinho é exuberante pelo traçado de dunas de areia dourada na ponta nordeste, limite da Parnaíba com Luís Correia. Mas, do lado de cá, ao longo da beira-dágua, surgiram edificações que alteram a paisagem e interferem sobre o meio ambiente. O Governo do Estado construiu aí um conjunto de bares, mesas de concreto sanitários, estacionamento e um atracadouro para pequenas embarcações. A seguir, ergueram-se outras construções e uma série de casas de propriedade particular por toda a margem oeste. Na área turística, além dos bares, espalha-se um aglomerado de barracas comerciais e um arruado de casebres, onde a gente do povoado próximo vende milho cozido e salgadinhos.
Os parnaibanos que vão ao Portinho são, em maioria, moradores do Bairro Piauí, de onde partem ônibus para a Lagoa. Aos domingos, chegam os visitantes de cidades do interior à procura do mar. Vão às praias e, à tardinha, vêm à Lagoa mergulhar e “tirar o sal”. Já os visitantes dos dias-de-semana são os turistas propriamente ditos, aqueles que vêm de longe pelo prazer de viajar. Todos declaram sua emoção com a beleza da paisagem.
A área destinada aos banhistas é marcada por bóias da Capitania dos Portos e não pode ser invadida por jet-skis. Pescadores de canoa jogam redes e anzóis à procura de bagres e tilápias ainda existentes, mas a maioria dos pescadores pesca de anzol ou tarrafa junto à margem. Há também os pegadores de siri, abundantes, considerados de excelente qualidade e que chegam a pesar meio quilo.
Acontece que esse santuário de águas escuras, às vezes esverdeadas, outras vezes brilhantes como prata e sempre alucinadoramente belas, corre fatal perigo. Banhistas escorregam do alto das dunas para mergulhar nas águas e, com isso, levam areia para o interior da Lagoa. Se alguém reclama, afirmam que “vim aqui pra me divertir”. É frase típica de rapazes que vêm do interior em ônibus de excursão. Talvez sejam os que causam maior mal à Lagoa, mas é atitude que pode ser revertida com proibição, vigilância e educação ambiental.
Os esportistas do Portinho são atletas que disputam a etapa nacional do campeonato de wind-surf, parnaibanos ricos que navegam de jet-ski e passeadores de banana-boat. Outros divertimentos de forte impacto sobre as águas são um dito ski-bunda e um skate-de-areia, em que se escorrega do alto das dunas para dentro da água, carregando mais areia para dentro da Lagoa. O passeio de bugre pelas dunas está proibido porque os carros empurram muita areia para a água.
Criada por um efeito da natureza (o represamento de águas do Rio Portinho e alguns olhos-d’água), a Lagoa vê-se há anos ameaçada também pela própria natureza que a criou: o avanço de areia para dentro d’água com ameaça de soterramento total. A cada ano, a profundidade está menor; a Lagoa mais rasa.
O fenômeno das dunas ocorre por todo o litoral piauiense, com exceção de pequena faixa de manguezais nas Canárias, em Luís Correia e no limite com o Ceará. Mas, nossas dunas são de baixo índice de deslocamento, que mal chega a 20 metros por ano enquanto noutras regiões dunas deslocam-se até 500 metros por ano. E as nossas não são desérticas, salvo na aparência, pois constituem um valioso ecossistema. Na estação das chuvas, as dunas de formação em meia-lua acolhem as águas do céu criando lagoas temporárias que geram piabas, camarões, flora aquática e vermes que alimentam aves migratórias. Sobre o Portinho, porém, paira o risco de desertificação, que se tornará real se as dunas, em sua gratuita entrega aos ventos, continuarem avançando água adentro.
Há anos, técnicos especializados conhecem meios de fixação das dunas. Um deles é cobri-las com palha de coqueiro, o que evita a mobilidade e provoca o nascimento de vegetação. Em artigo para o Almanaque da Parnaíba-1946, José Euclides de Miranda já citava como eficiente o plantio de “árvores próprias, como os pinheiros marítimos, os mangues, as trepadeiras (salsa oró), o capim”. Esse procedimento foi efetuado na Amarração (Luís Correia), nos anos 1940, mas não teve continuação.
Autoridades dos mais diversos setores sabem do risco de desaparecimento da Lagoa do Portinho, mas nenhuma atitude de preservação acha-se em andamento ao passo que as dunas continuam na ambição das águas, tentando se apossar delas. E muita gente tem consciência de que, se não forem tomadas atitudes defensivas com o máximo de brevidade, os ventos e as dunas vencerão e a lagoa desaparecerá dentro de vinte anos.
Lá por mil novecentos e oitenta e tal, foi realizado um seminário de estudos técnicos em busca de soluções. Vieram técnicos da Austrália, da França e do Canadá, além de brasileiros. O seminário durou uma semana; terminou com a redação de um relatório carregado de sugestões e deu em nada. Na primeira metade dos anos noventa, iniciou-se um processo de cobertura com palha de coqueiro, mas o trabalho foi abandonado e o avanço das dunas prosseguiu.
Agitadas por ventos que sopram do mar, as águas vivem à mercê deles. Quando passam sobre a Lagoa correm a 70, 80 quilômetros por hora atuando de modo negativo e de modo positivo. Se, por um lado, sopram sobre as dunas jogando areia na Lagoa, por outro, evitam a poluição das águas, tão maltratadas pelo homem, seu predador. (No fim duma tarde de domingo, o estado de sujeira das águas é doloroso: restos de comida, sacos de material plástico, fezes, papéis, frascos de xampu e de óleo... Mais adiante, são os donos das mansões que jogam lixo doméstico dentro d’água. Felizmente, a força dos ventos provoca uma corrente na água fazendo-a percorrer um ciclo semanal de vai-e-volta de um extremo a outro.
A água do Portinho, observada em análise, apresenta um pequeno índice de sal, outro de areia e um terceiro, que é um certo resíduo vegetal. Durante o ciclo da corrente, o lixo orgânico incrusta-se naquele material vegetal que, ao passar por determinadas áreas em que abunda um capim nativo no leito da lagoa, todo o lixo orgânico é puxado para baixo, impregna-se e ali se degrada. Por isso, trechos do leito são de finíssima areia e outros de lama e capim, absorvedores do lixo. É também movido pelo vento que o lixo que não afunda é jogado para as margens e todo esse ciclo faz com que a água esteja continuamente renovada e própria para o banho.
Tudo isso revela o estado de abandono em que se encontra esta que é uma das mais belas lagoas do mundo, detalhe que o piauiense parece não perceber. E sabe-se que muitos pontos turísticos brasileiros de beleza inferior são tratados com maior respeito e proteção. Povos mais conscientes a tratariam como Santuário. Basta procurar “Lagoa do Portinho”, na internet, para que surjam mais de 600 páginas de turistas encantados e recomendando uma viagem à Lagoa.
Este artigo é resultado de um estudo para o ex-Prefeito da Parnaíba, Paulo Eudes Carneiro que, em 2004, pretendeu lançar a campanha “Salvando o Portinho”, mas não teve tempo de executá-la. Além dele, ninguém mais alertou para defesa da Lagoa do Portinho. Mas é preciso que tal campanha seja lançada e executada com urgência.
*Benjamim Santos é escritor.
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