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Elmar Carvalho
 
Elmar Carvalho - 07/06/2006 - 11:32

 

  

 

RELEMBRANÇA DE POSSIDÔNIO

Elmar Carvalho*

Em agosto de 1989, na qualidade de presidente da União Brasileira de Escritores do Piauí – UBE-PI, fiz realizar em Oeiras o III Encontro de Escritores do Piauí. O evento foi bastante concorrido e coroado de sucesso, com a presença de importantes escritores piauienses, além de consagrados intelectuais da Terra Mater. Prestei homenagem, com placa da UBE-PI, ao grande romancista oeirense O. G. Rego de Carvalho. Entre outras importantes palestras, destacou-se uma sobre a imprensa piauiense, documentada por ter sido uma peça escrita, do saudoso médico e escritor Expedito Rego, devidamente apresentado pelo seu admirador e afilhado Carlos Rubem, promotor de justiça e de cultura, produtor e agitador cultural.

Foi a primeira vez em que vi o titã Possidônio Queiroz, como o chamou o cronista Gutenberg Rocha, que me prefaciou, com muita competência e louçania, o meu opúsculo Noturno de Oeiras. Fomos visitá-lo, entre outros que a minha memória já não registra, Chico Miguel de Moura, Hardi Filho, Júlio Caribé, Adrião Neto, Ivanildo Di Deus, que pelas suas “diabruras” chamo de Ivanildo de los Diablos, Carlos Rubem e este escriba. Possidônio era um negro miúdo e franzino no porte, mas era um gigante das letras e da música. Vimos a sua avantajada biblioteca. Depois, ficamos a palrar em seu terraço.

A conversar não é bem o correto, porque, para satisfação e lucro do grupo, só o velho Possi falava. Apresentou-se com o seu aparelho auditivo na mão, e nos foi logo advertindo que sem ele nada escutava. Não o colocou no ouvido, e desfiou um longo monólogo em que imediatamente se percebia ser ele um versado e versátil causeur. Foi melhor assim, porque na relativa solidão em que vivia, já viúvo e um tanto recolhido, tinha muito que dizer, e a chegada dessa trupe foi uma oportunidade ímpar de mostrar sua sabedoria de vida e cultura. Não soube, então, de sua extraordinária obra musical. Com efeito, só vim a conhecê-la muitos anos depois, através de um compact disc, denominado Valsas Piauienses, produzido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves – FCMC, em que a Orquestra de Câmara de Teresina, sob a regência do grande maestro Emmanuel Maciel, coadjuvado por seu filho Vítor Maciel, executava suas belíssimas valsas. Esse regente, mediante acurado e meticuloso trabalho, lhe resgatou a obra musical, dando-lhe novos e belos arranjos, tanto através desse cd como de um livro, no qual lhe transcreveu várias partituras.
É de se ressaltar, também, o empenho da Orquestra de Bandolins de Oeiras, que por intermédio da magia dos dedos ágeis de talentosas senhoras, não deixam cair no esquecimento a sublime música de Possidônio, tanto em suas esporádicas apresentações, como por meio do cd Bandolins de Oeiras, que, imortais, imortalizarão essa música divina, que nada deve às magníficas valsas vienenses, dos célebres Strauss.

As valsas do mestre são de timbre erudito, de caprichosa tessitura e variados movimentos. Formam microvalsas contidas numa valsa maior, que lhes dá o formato de rica unidade. Por vezes alcançam a culminância suntuosa de uma catedral, mas contendo, na sucessividade e perfeito encadeamento das frases musicais, a beleza miúda e detalhista de uma ourivesaria minimalista e perfeita. Música que suporta ser ouvida infinitas vezes, com o mesmo encantamento e cheiro de novidade da vez primeira, que não se esvai com o tempo, mas que, com o passar das eras, se torna ainda mais apetecível. Como prosador, era um mestre, um estilista esmerado, na construção de frases perfeitas, rítmicas, repassadas de emoção e beleza, embebidas de denso conteúdo, sempre pertinente, desprovido dos arrotos da erudição balofa e exibicionista.

Creio ser fora de dúvida que a formação musical de Possidônio se deu na primeira metade do século passado. Causa espanto, como numa época dessa, em que Oeiras, como de resto todo o Piauí, vivia mergulhada em profundo insulamento cultural, em que os preconceitos da elite eram maiores, um negro pobre pudesse alcançar o patrimônio intelectual e musical, que ele amealhou, autodidata que era. Certamente o foi através da perseverança de indormidas noites de estudo, mercê de uma poderosa disciplina e vocação para as letras e para a música. Sobretudo pelas dificuldades de comunicação e intercâmbio, em que não se dispunha, como hoje, de um serviço de correios mais ágil, em que as informações e materiais artísticos podem ser obtidos por reembolso postal, serviço de encomenda postal, pedidos por fax, carta, telefone, Internet etc., sendo que esta última, além de se constituir como um verdadeiro shopping center virtual, é ainda fonte caudalosa de cultura e notícias.

Vi o Bruxo Velho de Oeiras, como o cognominou Carlos Rubem, em bela e brincalhona alusão ao epíteto de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho, pela derradeira vez, no Cine-Teatro Oeiras, quando do lançamento de um livro sobre sua excelsa obra musical, em que se apresentou a Orquestra de Câmara de Teresina, sob a regência do maestro Emmanuel Maciel. O mestre Possidônio, surdo, colocava a cabeça dentro das cavidades das caixas amplificadoras, na ânsia inglória de escutar as sublimidades que ele próprio criara. Lembrou-me Beethoven, sem poder ouvir a música extraordinária que produzira e nem os aplausos delirantes que o seu gênio divino arrancava.

Lembrou-me, também, os versos de Drummond: “Era meu avô já surdo, / querendo escutar as aves / pintadas no céu da igreja”. E a música do sacerdotal Possidônio era como uma catedral soberba, que tudo envolvia, em que éramos os crentes e o culto era o êxtase dessa música celeste.

*Elmar Carvalho é poeta e juíz

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