Vez por outra me lembro da capa da edição de época do Leviatã, de Thomas Hobbes. Aquele rei, composto do povo, representando o Estado Absoluto me parecia assustador a gritar: “o homem é o lobo do homem”. Mas começa ali a teoria do “Grande Irmão”: o homem tem que ser contido pelo Estado. Assim o Estado aparece para manter a paz entre os homens. Depois, John Locke, o outro inglês da Teoria Política, diz que o homem deve seguir sua natureza pacífica. O Estado aparece para dirimir conflitos não previsíveis na bondade humana.
O problema é que Hobbes deu na monarquia absolutista e nos estados totalitários, entre tais, o socialismo; e Locke na República, mas também no neoliberalismo. Como que a prever, no escárnio do poeta: os sonhos do filósofo acontecem como pesadelos.
Mas só uma coisa me conduz à Teoria Política de Estado: ele só se coloca, como primeira função, para organizar a ordem. Ou porque os homens são feras, ou por haver feras entre os homens. E quando esta função já se não há, não há Estado... Mas disso trato em outra vez.. Aqui, no Hobbes e no Locke me interessa outra antinomia. Confesso minha simpatia pela tese de Hobbes e seus arroubos de organização do Estado. Tanto para conter o lobo, quanto pra proteger o cordeiro. No Estado protetor dos mais fracos, das leis operárias das conquistas das abelhas, me fiz marxista, leninista, comunista, na pregação do bem-estar dos trabalhadores. Apesar das quimeras dissonantes, ainda hoje sinto saudade das utopias. O problema foi o muro, as ditaduras e a supressão de liberdade. Coisas de minha intolerância. (Hoje até acho que não gosto de ninguém no poder, o que é um desespero para minha formação política!).
Também me iludiu o Locke. Sua proposta de estado Liberal deu no liberalismo aliado à ditadura de triste memória. Mas também na democracia, como remédio dos males da encrenca política. Mas este senhor em nada é melhor que seu conterrâneo. Sob sua inspiração melódica, o neoliberalismo se fez canção. Uma canção em que os três porquinhos enfrentariam o lobo mau pela astúcia e competência. Oportunidade para todos os porquinhos. Os que estavam abaixo da linha dos porcos que se emporcalhassem na lama da concorrência. Se perdessem, babau; se ganhassem, tim-tim. Era da lei do chiqueiro.
Vida que segue, sem a minha concordância, o que não tem a menor importância.
Acontece que o lobo mau não tinha mais como soprar. A crise do capitalismo americano de agora se apresentou como um vendaval numa farsa de 1929. O Estado Americano socorreu o lobo. E denunciou o estado mínimo. Não é deixar os porquinhos concorrerem, mas socorrer o lobo. É um Estado Mínimo da mínima classe dominante.
E eu só tenho pra enfrentar “seu” Locke os olhos grandes do “Leviatã”. Mas dele só me resta o medo...
*Edmar Oliveira é blogueiro e psiquiatra
Tomás Hobbes(1588-1674)
"As expressões pelas quais Hobbes o descreve o estado natural são célebres: "Homo homini lupus", o homem é o lobo do homem; "Bellum omnium contra omnes", é a guerra de todos contra todos. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhe assegura. Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco. Este último - por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças - sempre é o suficientemente forte para vencer o mais forte. Por conseguinte, ao invés de uma desigualdade, é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. Pois, em definitivo, ninguém está protegido; o estado natural é, para todos, um estado de insegurança e de angústia."
(Fonte Wikipédia)
John Locke (1632-1704)
Nasceu em Wrington, Inglaterra. Wrington fica perto de Bristol, de onde era a família de Locke. Eles eram burgueses, comerciantes. Com a revolução Inglesa de 1648, o pai de Locke alistou-se no exército. Locke estudou inicialmente na Westmuster School. Em 1652 foi para a Universidade de Oxford. Não gostou da filosofia ali ensinada. Manifestou, mais tarde, opiniões contrárias à filosofia de Aristóteles. Julgou o peripatetismo obscuro e cheio de pesquisas sem utilidade. Além de filosofia , estudou medicina e ciências naturais. Recebeu o título de Master of Arts em 1658. Nesse período , leu os autores que o influenciaram: John Owen (1616-1683) que pregava a tolerância religiosa, Descartes (1596-1650) que havia libertado a filosofia da escolástica e Bacon (1561- 1626), de quem aproveitou o método de correção da mente, e a investigação experimental. Interessou-se pelas experiências químicas do também físico Robert Boyle (1627-1691), que inovaram introduzindo o conceito de átomo e elementos químicos. Foi um avanço em relação à alquimia que dominou durante a Idade Média e a concepção de Aristóteles dos quatro elementos. Locke atuou nos campos de medicina, filosofia, política, teologia e anatomia. Não gostava de matemática. Redigiu em Latim, Ensaios sobre a lei da natureza. Já nessa época apresentava gosto pela regra experimental, de onde deriva sua filosofia empirista.
Leviatã
No Antigo Testamento, sua imagem é retratada pela primeira vez no Livro de Jó, capítulo 41. Sua descrição na referida passagem é breve. Uma nota explicativa revela uma primeira definição: “monstro que se representa sob a forma de crocodilo, segundo a mitologia fenícia” (Velho Testamento, 1957: 614). Não se deve perder de vista que nas diversas descrições no Antigo Testamento ele é caracterizado sob diferentes formas, uma vez que funde-se com outros animais. >
O Livro de Jó, capítulos 40 e 41, aponta a imagem mais impressionante do Leviatã, descrevendo-o como o maior dos monstros aquáticos. No diálogo entre Deus e Jó, o primeiro procede a uma série de indagações que revelam as características do monstro, tais como “ninguém é bastante ousado para provocá-lo; quem o resistiria face a face? Quem pôde afrontá-lo e sair com vida debaixo de toda a extensão do céu? ....Quem lhe abriu os dois batentes da goela, em que seus dentes fazem reinar o terror?...... Quando se levanta, tremem as ondas do mar, as vagas do mar se afastam. Se uma espada o toca, ela não resiste, nem a lança, nem a azagaia, nem o dardo. O ferro para ele é palha, o bronze pau podre”.
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1929: Retrato do Desespero