Homenagem a Chiquin
Homenagem dos amigos do Chikim (Francisco Sales de Carvalho Souza 12/02/1926 a 07/09/2008)
“Quando menino eu o via passeando nos arredores de sua casa, ombros empinados, cigarro de palha na boca, olhar aparvalhado, sorriso a um tempo, crítico e irônico. Para ir para o Colégio Costa Alvarenga passávamos, eu e outros garotos, pela porta da sua casa e ficávamos curiosos vendo os rabiscos, frases , para nós, sem nexo, que ele escrevia, com carvão, na calçada. Já adulto, a minha curiosidade por aquela figura emblemática, agora vítima da cegueira e totalmente reclusa, só fez aumentar. Tanto que obtive permissão de familiares para realizar um vídeo doméstico que intitulei “Luz de cego”, sobre ele.
Algumas pessoas não compreendem o meu interesse por pessoas como o Chico de Seu Dito Francisco. Julgam, até, tratar-se de sadismo de minha parte. Mal sabem elas que esses tipos populares carregam um humanismo que os constitui em patrimônio da cidade. Ignorá-los e marginaliza-los, essa sim, a meu ver, é uma atitude destituída de carinho, de caridade até!’
Oeiras, 21 de setembro de 2008
Carlos Rubem
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De: Rogerio Newton
Assunto: tio chico
Para: hiponave@yahoo.com.br
Cc: halanfsilva@yahoo.com.br
Data: Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008, 17:18
NUMA NUVEM DE SETEMBRO
No exato momento em que escrevo, deve estar saindo o cortejo do meu tio Chico, que faleceu ontem em Oeiras, aos 82 anos. A lembrança mais antiga que tenho dele é da minha infância. Um dia, ele nos visitou, conversou pouco ou quase nada com meus pais e voltou para casa como havia vindo, numa nuvem de alheamento. Não tenho certeza, mas ele devia estar voltando de uma temporada no Meduna, onde foi se recuperar de uma tempestade. Meu pai nunca me falou, mas, depois de procurar aqui e ali, soube que ele se casara e logo após houve a separação. Dias depois, ele foi para o Rio ou São Paulo, mas perdeu a mala ou foi assaltado. Voltou ao Piauí com o coração dilacerado. Nunca mais foi o mesmo. Ainda lembro que fazia gaiolas para passarinho e brinquedos para crianças. Mas durou pouco. Entrou numa introspecção... Com carvão ou giz, escrevia na calçada ou em pedaços de papel que atirava na rua. Ninguém sabe ou se lembra o que continha esses escritos. Em pouco tempo, não saia mais de casa e ficou cego. Gostava de conversar sozinho em voz alta e de cantar. Depois mergulhava no mutismo. Às vezes, me recebia dizendo, com sua voz cava, A Moenda, de Da Costa e Silva. Era um dos irmãos mais novos do meu pai e foi último a deixar a casa da família, na Praça do Perdão. Agora, em Oeiras, não há mais nenhum tio meu.. Uma das minhas primas, que ainda mora lá, disse que vai ficar cuidando da casa, cujo interior pertence a outro tempo, com suas paredes brancas e móveis antigos, entre os quais a escrivaninha que foi do meu bisavô. Desde ontem estou triste. Não pude ir ao enterro, como gostaria. Tentei escrever uma crônica, mas parei no meio do caminho, por temer macular sua memória. Mexia uns papéis procurando outra coisa e encontrei esse arremedo de poema:
a poeira sobre os móveis antigos
sobre a pele das paredes
a fina poeira sobre a memória
com o olhar que atravessa as paredes
tio chico revive a moenda
pela janela aberta
a luz da manhã
o azul do céu
o soluçar das ruas
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Uma Gaiola Aberta na Província
" tadim desse imbécil
tadim desse imbecil "
quando não estava compondo
na parede do quarto
sua obra
com pegadas
milhões delas
como vangog
atirado sobre a vida
aquém da inutilidade dela
sem pinceis
mas legítmo
como nossa obsessão
pelas coisas sem importância
a obra tá pronta
suspensa
na parede do quarto
lai vai chiquim
naquela núvem de setembro
sem alumbramento
sem pressa
salsa é uma coisa que não dá em ponta de morro
" fiduma égua burro "
vá chiquim
por enquanto vamu ficando puraqui
superando malaquias
na construção de nossas cercas.
Antonio Amaral
Sanatório Meduna, em Teresina.
Gaiola
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Moenda Completa
Francisco Sales Carvalho de Oliveira (1926-2008), o Chiquim
Antonio Francisco Da Costa e Silva (1885-1950), poeta e autor da letra do Hino do Piauí foi, também ele, vítima da loucura que se manifestou em 1933 e nele instalou-se. Viveu recolhido os úlltimos anos de sua vida.
Jean-Baptiste Debret ou De Bret (Paris, 18 de abril de 1768 — Paris, 28 de junho de 1848) foi um pintor e desenhista francês. Integrou a Missão Artística Francesa (1816), que fundou, no Rio de Janeiro, uma academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas Artes, onde lecionou pintura.
De volta à França (1831) publicou Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839), documentando aspectos da natureza, do homem e da sociedade brasileira no início do século XIX.
Uma de suas obras serviu como base para definir as cores e formas geométricas da atual bandeira republicana, adotada em 19 de novembro de 1889.
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