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Paulo José Cunha
 
Paulo José Cunha - 03/09/2008 - 14:43

 

  

 

Sobre algemas, imagens e moteis

Quem observa de longe até acredita que a discussão sobre o uso das algemas tem a ver com segurança. Conversa. Tem a ver é com imagem. A polícia defende as algemas com o argumento de que elas garantem a segurança dos agentes. Os que as combatem lembram que o recurso só se justifica se ficar configurado que a segurança está ameaçada. Se o preso não tem histórico de violência não se justificaria o uso das algemas, a não ser em casos excepcionais. Como ameaça é condição de caráter subjetivo – como adivinhar que um preso possa se tornar violento de uma hora para outra? Pela folha corrida? Pela cara? - tem-se que a autoridade policial decidirá a seu talante pelo uso ou não das algemas. Para se resguardar, se optar pelo uso, deverá poder provar que havia risco. Prova difícil, convenhamos, porque baseada exclusivamente na suposição.

Mas tudo isso é muito mais discurso. O que está prioritariamente em jogo não é o potencial de risco oferecido pelo preso, mas o impacto social da imagem de mãos algemadas.

Na maioria absoluta dos casos (à exceção de bandidos notórios e perigosos como Fernandinho Beira Mar e Juan Carlos Abadía, por exemplo), os que lutam para continuar algemando o preso não querem se proteger mas apenas expô-lo à execração ou, no mínimo, torcem para que a imagem cumpra um papel exemplar. Já os que combatem o uso das algemas temem o impacto da imagem no conceito social do preso.

Uma digressão rápida, só para explicar melhor. Todo texto – inclusive o falado – trafega inicialmente pelo racional do receptor, e só depois atinge o emocional. O racional é um processador que funciona como filtro que ameniza o impacto da informação. A mensagem textual tem, assim, um reduzido potencial de mobilização imediata. Por mais detalhada que seja a descrição de um fato, ela dependerá da elaboração das respectivas imagens mentais por parte do receptor. E essas imagens, produzidas de forma racional, têm reduzida dosagem de auto-credibilidade, porque o receptor é senhor da subjetividade de sua criação. Já a imagem percorre caminho inverso. É capturada e traduzida primeiro pelos setores do córtex cerebral associados às emoções (sistema límbico). Produz efeito instantâneo, não mediado pelo racional. Daí o sucesso dos veículos audiovisuais como a televisão e o cinema. Exigem pouca participação ativa do receptor, por atuarem intensivamente nas áreas cerebrais da emoção. Nesses veículos, a articulação do discurso é reduzida ao máximo para não “espantar a caça” (a audiência) com demandas ao racional. Apenas os elementos essenciais do discurso são apresentados. A mensagem é intensiva de imagens, inclusive quando “organizadas” de forma aparentemente caótica – por exemplo, nos vídeoclips. É mínimo o apelo à participação racional do receptor na “construção” da informação. Ele recebe o prato feito, é só consumir, sem maior esforço. Por isso uma pessoa é capaz de ficar horas diante de um televisor, mas ficará mentalmente cansada se tiver de ler páginas e páginas de texto puro, que exijam intenso uso do cérebro para a construção das respectivas imagens

A primeira reação emocional é a formação do juízo de valor, que nada tem a ver com racionalidade. Uma das frases mais ouvidas em tempo de propaganda eleitoral é: “Não me lembro do que ele falou durante a propaganda, mas eu gostei do jeito dele”. Ou seja: gostou do que a imagem lhe apresentou, não do que o candidato disse ou articulou. E já construiu um juízo de valor (“gostei do jeito dele”). O emocional sobre o racional. Daí os jingles montados sobre imagens embevecedoras (emocional), para seduzir o eleitor, e não para fazer com que ele pense. E daí a parcimônia cada vez maior com que os candidatos apresentam programas de governo, cujos temas normalmente são mais complexos e portanto enfadonhos, exigindo a cansativa atividade de pensar.

No caso das algemas, o temor de quem as defende é que a proibição de que seu uso impeça a opinião favorável do público aos responsáveis pela prisão - os realizadores, no imaginário popular, do desejo social de justiça. Já os que são contra as algemas receiam a formação de um juízo de valor depreciativo ao preso pelo impacto da imagem. Justamente por isso os presos mais esclarecidos – os que mais temem os arranhões às suas imagens públicas - são os que mais recorrem ao artifício de cobrir com um pano as mãos algemadas.

Se fosse possível algemar e transportar os presos sem a presença dos fotógrafos e cinegrafistas a discussão sobre as algemas acabaria aqui. Ninguém se interessaria mais por ela. Porque uma coisa é a notícia escrita de alguém ter sido preso e algemado. Outra coisa é alguém aparecer algemado na foto do jornal ou na tela da tv. A discussão sobre o uso das algemas lembra muito aquela história do camarada que finalmente conseguiu conquistar a garota mais cobiçada da cidade e, ao vê-la tirar a última peça de roupa no motel, exclamou: “Quando eu contar, ninguém vai acreditar”. “Mas você não pode contar nada a ninguém!”, reage a moça. E ele, pegando a chave do carro: “Então pode se vestir pra gente ir embora. Se não puder contar não vai ter graça nenhuma”.





*Paulo José Cunha é jornalista, escritor e professor de Comunicação

















 

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