"Oeirenses visitam o túmulo de Dom Expedito Lopes em Garanhuns-PE (início dos anos 60)"
Quando eu nasci, em 1958, ele já tinha sido assassinado, há, pelo menos, um ano, pelo padre Hosana, em Garanhus-PE, de onde era Bispo, mas isto não me impede de avaliar a comoção que a sua trágica morte provocou entre os oeirenses.
Se não vivi o dia, convivi, desde a mais tenra idade, com as histórias contadas e recontadas nas casas dos meus avós. Tia Mirista levou meu irmão João Henrique para que fizesse, pagando promessa, a primeira comunhão no local onde foi enterrado o pranteado Prelado. Pegaram carona num caminhão da ANDA – Associação Nordestina de Desenvolvimento Agrícola.– criada por Dom Edilberto, em 1964. Vovô Joel Campos, Oficial do Cartório do Registro Civil aqui na Velhacap, cansou de registrar meninos com o nome de Expedito. E até hoje é grande a legião dos que, tanto no Piauí como em Pernambuco, desejam a canonização do Bispo Mártir.
Pensando bem, não era para menos. Dom Expedito Lopes foi o primeiro Bispo de Oeiras e sua posse, em 1949, era aguardada pelos oeirenses pelo menos desde 1944, ano da criação da Diocese. Foi um Prelado, todos dizem, trabalhador, muito amado pelos fieis. Há quem afirme até que Dom Raimundo de Castro e Silva, seu sucessor na Diocese de Oeiras, não resistiu à comparação que o povo fazia entre ambos.
Com toda esta agitação provocada pela renovação da Diocese de Oeiras e a ordenação de Dom Juarez Sousa da Silva como seu sexto Bispo, acabei me lembrando de uma crônica, velha de pelo menos 15 anos, que escrevi sobre o famigerado assassinato e sobre um livro(1), escrito pela pesquisadora pernambucana Ana Maria César, em que ela investiga as possíveis causas do desatinado ato do Padre Hosana. Tanto a crônica como o livro foram intitulados “A Bala e a Mitra”. Tive por alguns momentos, a tentação de republicar o trabalho de minha lavra da maneira como foi concebido em 1993, mas houve por bem recontextualizá-lo, uma vez que, nestes quinze anos, muita água rolou sob a ponte. Fazer uma releitura, como diria o insuperável agitador cultural Zé de Maria, verdadeiro ícone parnaibano.
Cito, no entanto, o trecho em que escrevi sobre a obra da citada escriba por considerar que as ponderações que fiz naquela crônica não perderam atualidade. Ei-lo:
Obra que suscita curiosidade insopitável. Trabalho exaustivo, elaborado por profissional que bem sabe garimpar informações. Em nota introdutória, a autora questiona: “E ainda hoje se pergunta o que teria levado um sacerdote a infringir um dos mais graves mandamentos da lei de Deus. Quem era o padre Hosana? E Dom Expedito? Que fizera para impulsionar o seu pároco a imolá-lo?” Para logo apresenta profundas e incontestes explicações sobre o badalado delito. O leitor sente-se gratificado. Vale a pena embrenhar-se nessa leitura instigante, objetiva, veraz.
Sobre a obra, o jornalista Waldemar Lopes escrerveu: “é um bom de modelo de como se fazer História. Com o gosto obstinado da pesquisa, empenho sem cansaço na busca da verdade, a total isenção em face a realidade dos fatos, o senso crítico sempre acima da deturpação das paixões.”
Outro fato interessante que eu revelei naquela crônica é a história, segundo a qual, o padre Hosana “lembrou, em entrevista concedida à revista “O Cruzeiro”, em1959, que o Papa Pio XII, quando Núncio Apostólico em Munique, manteve a seu lado, durante 19 anos, a irmã Pasqualine, que tinha, inclusive, acesso aos seus aposentos. Assumindo a Santa Sé, a irmã Pasqualine continuou a viver com o Papa, sem que este fosse acusado de manter concubinato com a freira”
De lá para cá, o próprio padre Hosana, já em idade provecta, aos 84 anos, foi, também, assassinado, aliás, barbaramente, a pauladas na cabeça, em uma fazenda de sua propriedade situada a nove km da cidade de Correntes-PE, a 7 de novembro de 1997. Até hoje se desconhece o autor do crime, embora um casal de humildes lavradores, Cícero Barbosa da Silva e Evalda Maria Peixoto da Silva, tenha sido acusado de praticar o delito. Nem a Promotora de Justiça da Comarca, Ana Jaqueline Barbosa Lopes, encarregada do caso, se dispôs acusar o casal.
Em 2005, um trabalho de conclusão do curso de telejornalismo de autoria de Ulisses Brandão, Kele Gualberto e Marcos Leandro e intitulado “Batinas tintas de Sangue” recebeu o “Premio Cristina Tavares” de jornalismo na sua categoria (telejornalismo).
(1) A Bala e a Mitra, de Ana Maria César, Recife Edições Bagaço, 1994