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Ferrer Freitas
 
Ferrer Freitas - 20/05/2008 - 10:38

Um pastor da cor de Oeiras

Era tudo o que o povo de Oeiras  queria,  um pastor pra chamar de seu. Só não esperava, o que o alegrou mais ainda,  que o pastor fosse de sua cor. A rima é boa. A recepção na manhã  do último sábado, então, nem se fala.  Diria, não me importando que me chamem de exagerado, bairrista ou coisas que tais, que  foi uma recepção apoetótica. O povo de cor foi para as ruas, becos e vielas da velha urbe de Possidônio  Queiroz e Nogueira Tapety, por sinal dois ícones oeirenses  de cor, receber  seu  pastor de cor. 

Acredito que dom Juarez, se é que ainda não sabia, ficou surpreso ao constatar que a maioria dos seus diocesanos, 75%, segundo comprovado por  estatísticas, é de cor, ou seja, negros ou pardos. Digo isso com orgulho, pois  minha certidão de nascimento, passada no cartório do saudoso tio Joel Campos  me dá como uma criança parda, como não poderia deixar de ser, pois minha bisavó materna  era  uma mulher negra do Outeiro, comunidade que fica bem próxima do bairro negro do Rosário. O velho  Ferrer, meu avô, não podia negar.

Foi de arrepiar!  Quando dom Juarez desceu do transporte que o trazia do Ipiranga, onde pernoitara,  no pórtico  da cidade, o povo  correu pra cima dele querendo abraçá-lo.  Se deixassem, levavam-no, com certeza, até à catedral, nos  ombros calejados pelas  cruzes das agruras da vida. Era de ver a alegria estampada nos rostos  oeirenses.  Alguém próximo de mim deixou escapar: “ô  povo pra gostar de um bispo!” Dom Juarez,  com certeza, esperava  ser bem recebido, mas não  com  aquela efusividade.   Postou-se num transporte  aberto, entre as bandeiras de Oeiras e do Vaticano, e rumanos todos para a Praça das Vitórias, com as pessoas   às portas de entrada de suas  residências,  acenando e aplaudindo-o.  Vi crianças fardadinhas com uniformes escolares, bandeirinhas à mão, recitando a uma só voz: “um, dois, três, seja bem-vindo dom Juarez!”

No adro da velha Matriz,  palco monumental  em  que seria, mais tarde,   celebrada  a ordenação episcopal, a primeira a ser realizada na diocese,  já se encontravam outras dezenas de fiéis à espera  de seu  bispo, agora, e para sempre,  só deles.  Um,  como aquele primeiro, entusiasmadíssimo, disse à meia-voz: “este ninguém tasca, é só nosso!”  E o pastor dos oeirenses assomou o  adro por entre palmas demoradas e vivas entusiasmados, ouvindo o som dos velhos sinos portugueses  e um foguetório ensurdecedor. À tardinha, por volta de 17 horas, iniciou-se a cerimônia de sagração presidida por dom Lorenzo Baldisseri, Núncio Apostólico, acolitado por dezessete prelados e um sem-número de sacerdotes, entre estes o festejado Padre Toni, meu pároco, que me disse mais tarde:  “vocês estão de parabéns, pois tem a guiá-los, a partir de agora, um homem de Deus!”.         
                                 

(*)Ferrer Freitas é ex-coroinha da diocese de Oeiras
 

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