Eng Sampaio 150 anos
Eng.º Sampaio, 150 anos (1857/2007)
Fonseca Neto*
“Admirável douto infame”! (Vilhena, p. 141). Voa, Ícaro dos Sertões!
Há exatos 150 anos, em 9 de abril de 1857, nasceu na microrregião de Livramento, Antonio José de Sampaio, depois “engenheiro Sampaio”. Pouco conhecido, sufocada a lembrança do seu exemplo e feitos pelos contemporâneos e as gerações sucessoras. Mais conhecido estando agora, porém, por obra do professor Marcos Aurélio Gonçalves de Vilhena, que há pouco publicou em livro um estudo dissertativo sobre esse invulgar personagem piauiense: “Vôo de Ícaro – tensões e drama de um industrial no sertão”.
A vida e os sonhos de Sampaio, em 49 anos vividos, são aí examinados com novíssimas chaves conceituais-metodológicas, que o capturam e desconstroem, fio por fio, palavra por palavra. É a desconstrução ou desjunção organizada de um sujeito, flagrando-lhe, a um só tempo, as subjetividades laborativas da matéria dos sonhos e dos enleios do tempo. Estilhaçamento de espírito, para pulsar-lhe os conflitos que o inquietam.
Sampaio foi estudar fora nas últimas décadas do Oitocentos. Voltando da Suíça para o Piauí, formado, idealizou contribuir para mudar sua terra pela via da modernização industrial. Contratou a administração das mafrensinas fazendas de criar gado, então “patrimônio da nação” (abril 1889) e ergueu uma fábrica de lacticínios nos campos centrais do Piauí.
(Empreendimento complexo e algo absolutamente novo naqueles sertões; ou, o olhar europeu do jovem engenheiro operando um estado de concreção nos campos semi-áridos das vacas mochas e de pés duros da Oeiras de ontem; ou, ainda, uma chaminé altíssima fumegando desde aquela margem do riacho dos Campos; e mulheres nos terreiros da fábrica, fiando, jogando bilros, tecendo, bordando, as rendas das palas e de outros usos das damas européias. Tudo isto, como que metáfora, mas sobretudo uma experiência real baldada nas tensões do novo e da tradição).
A chaminé, e seus tufos de fumaça escura, eram para o maluco beleza do Sampaio, a própria poética da diluição do Piauí escravista, preso às suas tradições mais arraigadas.
Vilhena assim lapida esta consideração essencial sobre o existir do engenheiro Sampaio: “uma jovem subjetividade atravessada por dois mundos...: a rotina do passado rural de sua infância e a velocidade da transformação e do progresso que lhe extasiaram o espírito enquanto vivera na Europa” (p. 47).
Como se vê, estudando Sampaio, Vilhena elucida-lhe a trajetória inventariando os sentidos, o sucesso efêmero e o fracasso de suas idealizações, e o faz fraturando os discursos dele próprio, o técnico, e o que escreve sobre a injustiça etc. E também sobre o que disseram dele. Eis a razão de ser o estudo e o livro sob foco diferentes de quase tudo o que se viu até agora nesta terra em matéria de biografia. Absorve para tanto a inspiração de Le Goff, biógrafo de São Luís, assim esculpindo discursivamente Sampaio como aquele que tanto “constrói a si e a sua época tanto quanto é construído por ela” (p. 17).
Ocorre que Sampaio viveu aquelas duas temporalidades: a da Europa de indústrias fumegantes, e a do Piauí dos aboios do fim de tarde; da Europa explodindo em sindicatos operários, e do Piauí avassalado, cativo. E no Piauí do tempo, não haveria maior provocação aos coronéis dos eitos que a proposta desse menino de criar “sindicato” no âmbito da produção agrário-extrativa, organizar os produtores para venderem diretamente sua produção, conferir renda para mulheres (p. 171).
O livro de Vilhena é denso, de escrita limpa, nem parece dissertação de mestrado (que fez na Ufpi). O que vai aqui neste registro de aniversário, são pistas dele que ajudam a entender porque AJ Sampaio foi silenciado. Tem o mérito maior de ser “acendedor de lampiões”, coisa de menino rural, diga-se. A ele fosse permitido, porém, como engenheiro industrial, disseminar nitroglicerina por aqueles campos de santo Inácio...
ANTONIO FONSECA DOS SANTOS NETO
Departamento de Geografia e História