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Fábrica de Sonhos
Fábrica de Sonhos
Fonseca Neto*
TOMBAR E REERGUER! Eis o que engaja e mobiliza um número crescente de pessoas em busca da recuperação das instalações físicas da “Fábrica de Laticínios de Campos”, empreendimento da Oeiras secular e que daria origem à atual cidade de Campinas do Piauí.
A força que enreda a criação dessa Fábrica no coração do Piauí pastoril deveria ser mais conhecida: o sonho de um piauiense notável, o engenheiro Antonio José de Sampaio, mobilizando esperanças de alcançar um patamar de industrialização que colocasse o Piauí em outro plano histórico.
O projeto teve sucesso apenas parcial, tendo fenecido por variadas razões. Ficou, porém, a testemunhar as dimensões do sonho do Piauí com maior grandeza, a obra física que sediou o projeto: um edifício muito bonito, além de muito bem arquitetado, com vistas à funcionalidade no processamento do leite para fabricar-se manteiga e queijos de especial qualidade e outros derivados.
O projeto do engenheiro Sampaio teve sua fase áurea e ao mesmo tempo efêmera de implantação na última década do Oitocentos. É dessa década o edifício, agora centenário, e em ruínas. Em ruínas, diga-se, mas ainda firme em suas bases estruturais, exibindo, intactos, elementos construtivos nunca vistos no Piauí até então.
Arruinado ficou, adiante-se, pelo prolongado desuso na finalidade para o qual foi construído, e mais, simplesmente pela desatenção à sua importância e grandeza dos signos que encerra e exprime na construção da experiência de fazer-se o Piauí. Não seria de todo estranha e fora de lugar a compulsão, ainda que apenas sussurrada, de fazê-la ruir, como arruinada se fizera a experiência de Sampaio. E, no limite, como a querer provar-se a miséria das misérias de certa elite afugentando os eitos da esperança, dizendo: “no Piauí, não adianta sonhar a modernidade, ousar os saltos para frente, tensionar os tons das quietações dos campos da pastar...”.
Em pouco mais de cem anos, nasceu e cresceu a cidade de Campinas ao derredor da Fábrica. Isto nem era exatamente o projeto de Sampaio e até parece contraditório com o declínio dela. Mas não é despropositado prestar atenção numa coisa: aquela chaminé ereta para o céu, firmemente alicerçada nas entranhas daquele sertão central, não tivera apenas a função de expelir e dissipar em fumaça tantos sonhos redentores, conquanto é possível ver sair de sua boca aberta para o ar, anunciadoras tochas do tempo da justiça ao qual ainda devemos a construção.
A Fundação Nogueira Tapety, sediada em Oeiras, secundando e melhor colocando uma aspiração já de décadas, anima o projeto de tombamento federal da Fábrica de Campinas. Órgãos públicos em todos os níveis, e pessoas, comuns e diversas, vão crescentemente direcionando seu engajamento nesse rumo. É preciso. Claro, já não se pensa em reerguer a “Fábrica de Manteiga Dr. Sampaio” para fazer o que ela não fez em plenitude. Agora, trata-se de recuperar um patrimônio edificado, de inquestionável importância na história do Piauí, entregá-lo para a comunidade campinense, que ela descobrirá a melhor função social que deverá dar a ele contemporaneamente.
A FNT agita, em legítima campanha; o Iphan decanta e formata; a Fundac, signatária do tombamento estadual, age positivamente, fazendo reparos emergenciais e evitando o pior; a Ufpi ensaia engajamento ativo; Vilhena, em livro, faz explodir as grandezas e misérias do Ícaro cuja cabeça, em troféu, repousa na praça-matriz de São Paio de Campinas.
UNINDO SONHOS: TOMBAR E REERGUER, JÁ!
(*) Fonseca Neto, professor do Departamento de Geografia e História e Diretor do CCHL/Ufpi. Artigo originariamente publicado no Jornal “Diário do Povo”, em 29.01.07.
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