Nota do Editor:
O artigo abaixo, de autoria do artista multi-meios Paulo Moura chegou às nossas mãos e despertou atenção sobre um antigo “point” da intelectualidade teresinense, o Bar “Nós e Elis”, que, durante vários anos, nas décadas de oitenta/noventa do passado século XX abrilhantou as noites da Cidade Verde, revelando, inclusive, muitos artistas hoje consagrados. Procurados, alguns dos protagonistas daquelas memoráveis jornadas etílico-culturais aquiesceram em escrever sobre o Bar, com exclusividade para o “Portal do Sertão”, numa belíssima homenagem nostálgica que passamos, com muita alegria e entusiasmo, a divulgar.
Nós e a Teresina de “Nós e Elis”
Interessante como uma palavra tem poder de ecoar em nossa mente. Sabemos do poder que as palavras têm e não podemos desprezá-las quando, insistentemente, reverberam em nosso pensamento.
Impessoal. Foi o que me disse o poeta e publicitário Durvalino Couto a propósito de uma conversa que tivemos sobre a nossa Teresina. “A cidade está se tornando impessoal”.
Depois de assistir à celebração da amizade, no show que o cantor Roraima fez no Theatro 4 de Setembro dia 18 de dezembro do ano que se foi, reunindo amigos talentosos da música piauiense, ficamos a imaginar um local onde os amigos pudessem se reunir e prolongar o prazer por estar juntos. Aí bateu a saudade do bar Nós e Elis onde, invariavelmente, nos encontrávamos para trocar idéias, fazer projetos mirabolantes para a cultura, baixar o pau no governo, nos canalhas e medíocres de plantão, namorar, cantar e ver o sol nascer. O Nós e Elis era a referência na noite teresinense e podíamos contar com um oásis para mitigar a nossa sede de cultura e outras tais.
Teresina está se tornando impessoal, presente imperfeito. É o preço injusto que pagamos por uma cidade que incha de forma desordenada. Fiquei tentado a escrever “o preço do progresso” mas um diabrete sussurrou no meu ouvido esquerdo: “que progresso coisa nenhuma, meu irmão: inchaço!. Inchaço que lembra doença, dessas que vão minando a resistência do corpo social”.
Essa impessoalidade, que é a marca de nosso tempo, está presente nas relações sociais, culturais e comerciais. Impessoalidade gerada na frieza e na indiferença de pessoas que buscam agarrar-se ao impermanente, desprezando valores que enriquecem a vida; desprezando a própria vida.
Infelizmente, nada podemos fazer para deter o ritmo acelerado que a vida moderna adquiriu, numa corrida maluca para lugar nenhum.
Eu fico aqui no meu canto, soletrando alguns versos que nunca esqueci; correndo riscos de traçadas linhas; esboçando um jeito para viver melhor; saindo do sério porque viver é Graça.
* Paulo Moura é cartunista e artista gráfico